Elas não pedem licença: elas descobrem, sequenciam e reinventam a ciência brasileira 

Nos laboratórios brasileiros, mulheres têm conduzido descobertas decisivas, liderado equipes multidisciplinares e redefinido o papel do país no cenário científico internacional. 

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Por Lucyane Mendes Silva 

No imaginário coletivo, o cientista ainda carrega um estereótipo antigo: jaleco masculino, voz grave, autoridade incontestável. A realidade, felizmente, é outra. Nos laboratórios brasileiros, mulheres têm conduzido descobertas decisivas, liderado equipes multidisciplinares e redefinido o papel do país no cenário científico internacional. 

Biomédica baiana

Durante a pandemia de Covid-19, uma biomédica baiana tornou-se símbolo dessa virada histórica. Jaqueline Góes de Jesus, mestre e doutora em Patologia Humana e Experimental, integrou a equipe responsável pelo sequenciamento do SARS-CoV-2 no Brasil poucos dias após a confirmação dos primeiros casos. Em meio ao medo coletivo, foi uma mulher nordestina quem ajudou o país a enxergar, em nível molecular, o vírus que mudaria o mundo. 

O gesto foi técnico, mas também político. Mostrou que a excelência científica nasce da formação sólida, do investimento público e da diversidade. Mostrou que mulheres não ocupam a ciência por concessão — ocupam por competência. 

Hoje, outras pesquisadoras seguem avançando em áreas igualmente complexas. No campo da regeneração neural, cientistas investigam a polilaminina, estrutura biomimética derivada da laminina, proteína fundamental da matriz extracelular envolvida em adesão celular, diferenciação e crescimento axonal. Trata-se de um território que exige domínio em biologia molecular, engenharia tecidual e neurociências. 

Mayana Zatz

Entre as referências brasileiras em genética e terapias inovadoras está Mayana Zatz, médica geneticista e professora titular, cuja trajetória consolidou pontes entre pesquisa básica e aplicação clínica. Pesquisadoras com formação em Medicina, Biomedicina, Genética e Neurociências têm sustentado debates rigorosos sobre inovação terapêutica, sempre ancorados em evidência científica. 

É preciso dizer com clareza: ciência não é espetáculo. Não é milagre. É método, repetição, validação e revisão por pares. E mulheres estão em todas essas etapas: desenhando protocolos, coordenando ensaios, analisando dados e publicando resultados. 

Mulheres persistem na ciência

Ser mulher na ciência brasileira, contudo, ainda implica enfrentar assimetrias: menor acesso a financiamento, menor visibilidade em cargos de liderança, maior cobrança. Muitas conciliam produção acadêmica com maternidade, gestão e ensino. 

Persistem onde antes lhes disseram que não era lugar. 

Mas é. 

Quando uma pesquisadora sequencia um vírus em tempo recorde, ela salva vidas. 

Quando outra estuda proteínas capazes de reorganizar neurônios, ela expande horizontes terapêuticos. 

Quando tantas outras ocupam bancadas, salas de aula e centros de pesquisa, elas alteram o curso da história silenciosamente. 

Neste Dia das Mulheres, não celebramos apenas trajetórias individuais. Celebramos uma transformação estrutural. A ciência brasileira tem rosto feminino — diverso, nordestino, periférico, plural. 

Elas não pedem licença. 

Elas publicam. 

Elas lideram. 

Elas descobrem. 

E, ao fazerem isso, reinventam o futuro. 


Lucyane Mendes Silva é biomédica e pesquisadora, pró-reitora de Pesquisa, Extensão e Internacionalização da Wyden e gestora dos Programas de Internacionalização da Wyden. 


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