Manaus (AM) – O Amazonas enfrenta a temporada de queimadas sob a influência do El Niño, fenômeno que pode prolongar a estiagem e atrasar o início das chuvas. A combinação de temperaturas elevadas e vegetação seca aumenta o risco de propagação do fogo na região.
O cenário preocupa após a forte redução da área queimada na Amazônia em 2025. Naquele ano, o fogo atingiu 3,1 milhões de hectares, segundo o MapBiomas. Em 2024, a área chegou a 15,8 milhões de hectares, o maior valor da série histórica iniciada em 1985.
A diferença entre os dois anos evidencia a influência das condições climáticas sobre a extensão das queimadas. Também mostra por que a redução registrada em 2025 não representa, por si só, uma mudança permanente no comportamento do fogo.
Por que a queda de 2025 não afastou o risco
A redução de aproximadamente 80% da área queimada entre 2024 e 2025 teve forte influência das condições climáticas. Ane Alencar, coordenadora do MapBiomas Fogo e diretora de Ciência do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), atribuiu o resultado principalmente à estação chuvosa mais longa.
As chuvas de 2025 se estenderam até abril e maio em grande parte da região. Melhorias na prevenção e no combate ao fogo também contribuíram, segundo a pesquisadora.
A série histórica do MapBiomas mostra que as condições climáticas influenciam a extensão das áreas queimadas. Anos de El Niño, como 2010, 2015 e 2024, registraram grandes extensões atingidas pelo fogo.
A redução observada em 2025, portanto, não elimina o risco de novos episódios de queimadas. A duração da estiagem e a distribuição das chuvas continuam determinantes para a evolução do cenário.
El Niño muito forte pode atrasar as chuvas
O El Niño voltou a se formar no Oceano Pacífico em 2026. O fenômeno aquece as águas do Pacífico tropical e costuma reduzir as chuvas em partes da Amazônia.
Na terça-feira, 1º de setembro, o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) e outros seis órgãos federais divulgaram o terceiro boletim sobre o fenômeno. O documento cita uma previsão da agência norte-americana NOAA, divulgada no início de agosto. Segundo ela, há mais de 90% de chance de o El Niño ser muito forte entre setembro e novembro.
Esse trimestre costuma marcar a transição entre a estação seca e o período chuvoso na Amazônia. Para a região, o boletim prevê atraso nessa mudança.
O Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (Censipam) projeta chuva abaixo da média no Amazonas e em outros estados da Amazônia Legal. A previsão também indica temperaturas acima da média.
Segundo o boletim, a combinação de calor e estiagem prolongada aumenta o potencial de propagação de queimadas, sobretudo se as chuvas demorarem a chegar.
Pesquisadores da NOAA, porém, ressaltam que um El Niño mais intenso não garante impactos mais severos. O fenômeno aumenta a probabilidade de ocorrência desses impactos, mas não determina, isoladamente, sua intensidade.
O que provoca as queimadas no Amazonas
O fogo na Amazônia tem origem principalmente na ação humana, mas isso não significa que todos os incêndios sejam intencionais. Produtores rurais utilizam o fogo para eliminar a vegetação derrubada, renovar pastagens e preparar áreas para o cultivo.
Quando as chamas escapam do controle, podem alcançar a vegetação nativa e provocar incêndios florestais. Raios também podem iniciar incêndios, embora os estudos sobre a Amazônia apontem a ação humana como origem predominante.
A estiagem não é, necessariamente, a causa inicial do fogo. Ela favorece sua propagação ao reduzir a umidade da vegetação e tornar folhas, galhos e troncos mais inflamáveis.
Em condições normais, a umidade da floresta dificulta a propagação das chamas. Durante períodos prolongados de seca, porém, até áreas de mata fechada ficam mais vulneráveis ao fogo.
Fogo repetido dificulta a recuperação da floresta
A floresta amazônica não apresenta as mesmas adaptações ao fogo encontradas no Cerrado. Mesmo incêndios de baixa intensidade, que avançam pelo chão da mata, podem matar árvores e comprometer a regeneração da vegetação.
A repetição dos incêndios agrava os danos. Segundo o MapBiomas, 31,6% da área queimada na Amazônia entre 1985 e 2025 voltou a pegar fogo em até dois anos.
Os incêndios recorrentes dificultam a recuperação da floresta e podem alterar sua composição. A vegetação também perde biodiversidade e capacidade de armazenar carbono.
Esses danos nem sempre aparecem nas estatísticas de desmatamento. Uma área pode continuar coberta por árvores e, ainda assim, apresentar sinais importantes de degradação.
Um estudo publicado em 2024 na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) mediu parte desses efeitos com a tecnologia LiDAR. O sistema utiliza pulsos de laser para mapear a estrutura da vegetação.
Na área analisada, no arco do desmatamento, a degradação florestal e os distúrbios naturais responderam por 83% das emissões de carbono medidas. O desmatamento representou os outros 17%.
Os resultados se referem à área e ao período estudados, entre 2016 e 2018. Portanto, não representam uma estimativa para toda a Amazônia.
Em 2024, as emissões associadas à degradação pelo fogo também chamaram a atenção dos pesquisadores. Um levantamento do Centro Comum de Investigação da Comissão Europeia estimou que essa degradação liberou 791 milhões de toneladas de dióxido de carbono (CO₂) na Amazônia.
Pela primeira vez, as emissões atribuídas à degradação pelo fogo superaram as relacionadas ao desmatamento, segundo o levantamento.
Fumaça das queimadas afeta a qualidade do ar
A fumaça dos incêndios florestais pode percorrer grandes distâncias e atingir áreas urbanas. Em Manaus, a presença de partículas provenientes de queimadas compromete a qualidade do ar, especialmente durante períodos de estiagem.
A fumaça contém partículas finas, conhecidas como PM2,5. Por serem muito pequenas, elas conseguem alcançar regiões profundas dos pulmões e podem chegar à corrente sanguínea.
A exposição está associada ao agravamento de doenças respiratórias e cardiovasculares. Crianças, idosos, gestantes e pessoas com doenças cardíacas ou respiratórias estão entre os grupos mais vulneráveis.
Como referência, a Organização Mundial da Saúde recomenda que a concentração média diária de PM2,5 não ultrapasse 15 microgramas por metro cúbico.
Em Manaus, o Sistema Eletrônico de Vigilância Ambiental (Selva), da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), realiza o monitoramento da qualidade do ar. A divulgação de medições específicas permite avaliar a intensidade da poluição e sua variação ao longo dos dias.
Prevenção depende de ações antes da estiagem
O combate às queimadas começa antes do período de seca. A fiscalização do desmatamento ilegal, a orientação aos produtores rurais e o monitoramento das áreas de risco ajudam a reduzir a ocorrência e a propagação de incêndios.
Desde 2024, o Brasil conta com a Política Nacional de Manejo Integrado do Fogo. A legislação estabelece diretrizes para prevenção, controle e uso planejado do fogo, com participação de comunidades e instituições locais.
A previsão de chuvas abaixo da média reforça a importância dessas medidas. O acompanhamento dos focos de calor, das condições meteorológicas e da qualidade do ar será fundamental para avaliar a evolução da temporada de queimadas no Amazonas.
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