Nos Centros de Convivência da Família em Manaus, o Brasil indígena respira

A programação é diversa, como os próprios povos originários: tem roda de conversa, aulão de Boi-Bumbá, oficina de painel coletivo e artes visuais. Mas, mais do que isso, tem escuta, memória e pertencimento.

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Manaus (AM) – Enquanto o Brasil urbano acelera entre buzinas e boletos, um outro país — mais antigo, mais silenciado — resiste com cantos, grafismos e saberes que não cabem nos livros didáticos. Esse Brasil indígena ganhou espaço, nesta semana, nos Centros Estaduais de Convivência da Família (CECF) de Manaus.

A programação é diversa, como os próprios povos originários: tem roda de conversa, aulão de Boi-Bumbá, oficina de painel coletivo e artes visuais. Mas, mais do que isso, tem escuta, memória e pertencimento.

Dia dos Povos Indígenas

Na manhã de terça-feira (15/04), no Centro Padre Pedro Vignola, zona norte da cidade, a ancestralidade da cultura amazônica foi celebrada entre danças, falas e gestos.

O evento, parte das comemorações do Dia dos Povos Indígenas (19 de abril), foi promovido pela Seas (Secretaria de Estado da Assistência Social), em parceria com outros órgãos.

A psicóloga Adriana Fonseca conduziu a conversa com os participantes e destacou o essencial: falar de povos indígenas não é folclore, é reconhecer história viva.

“Precisamos combater o preconceito e entender que preservar a cultura indígena é preservar também nossas florestas, nossos rios, nossos ciclos de vida”, afirmou.

A floresta tem voz e nome

A iniciativa, longe de ser apenas uma pauta cultural, toca numa ferida social: a invisibilização histórica de quem estava aqui antes de tudo. Para Marilene Pimenta, de 63 anos, frequentadora assídua do centro, o contato com a temática resgata um pouco da verdade soterrada por séculos de colonização.

“Eles são os verdadeiros donos da floresta”, disse. E completou com lucidez que não cabe nos clichês: “Lutam pela preservação da fauna e da flora”.

Já Edines Gaia, também de 63, não escondeu a empolgação:

“Essas programações ajudam a gente a entender mais sobre a história dos nossos ancestrais. A gente aprende, pensa, sente”.

Roda que gira em outros centros

A celebração da diversidade indígena continua em outros Centros de Convivência. No CECF 31 de Março, no Japiim, por exemplo, o grupo “Juventude Mais Ativa” vai construir, no dia 22, um painel coletivo sobre a valorização dos povos indígenas. No dia seguinte, o grupo “Florescer” participa de uma palestra com a mesma temática.

Já o Centro André Araújo, na Raiz, prepara para o dia 24 uma atividade com artes visuais para expressar a identidade dos povos originários. No Ceci (Centro de Convivência do Idoso), rodas de conversa nos dias 22 e 23 tratarão da importância da memória e do respeito aos povos indígenas.

Um passo além da comemoração

Em tempos de desmatamento acelerado e discursos negacionistas, celebrar os povos indígenas é um ato político. Não se trata de olhar para o passado, mas de enxergar o presente com mais verdade — e o futuro com mais justiça.

Programações como essa, ainda que localizadas, ajudam a deslocar o olhar do senso comum. Mostrar que os povos originários não são personagens do passado, mas protagonistas da resistência.

Porque respeitar a diversidade indígena não é favor. É dívida.

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