Saci-Pererê na cidade dos rios mortos

*Por: Juscelino Taketomi Personagem ímpar da cultura e do folclore brasileiro, o Saci-Pererê, menino negro e travesso, com seu gorro vermelho e uma perna só, certa vez deu com sua carapuça em Manaus em meio às festividades folclóricas. Veio encarar a cidade encravada no coração da floresta, mas que, de floresta, só tem o calor […]

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*Por: Juscelino Taketomi

Personagem ímpar da cultura e do folclore brasileiro, o Saci-Pererê, menino negro e travesso, com seu gorro vermelho e uma perna só, certa vez deu com sua carapuça em Manaus em meio às festividades folclóricas. Veio encarar a cidade encravada no coração da floresta, mas que, de floresta, só tem o calor abafado e o som ocasional de um grilo que se perdeu no concreto.

“Vim respirar os ares da cidade”, disse ele, mal aterrissando em um rip-rap à beira de um igarapé. O cheiro, porém, denunciava: não era bem o perfume das matas que o esperava.

Com a destreza de quem passou uma vida equilibrando-se em uma perna só, o Saci desceu os fundos de um vale na Cidade de Deus, desviando de barrancos, buracos e de uma dona que empurrava um carrinho de bebê pelo meio da rua, porque calçadas, aqui, só existem no imaginário dos urbanistas.

“Manaus, capital tropical e sem calçadas… Que piada de mau gosto!” murmurou ele, desviando-se a duras penas de uma motocicleta que o obrigava a pular — com uma perna só — para não virar estampa no asfalto quente.

Ao longo do igarapé do Mindu, o Saci descobriu que os rios dali não eram simplesmente rios, mas rios zumbis. Estavam mortos, mas insistiam em feder.

Como denunciou o professor Marcos Castro de Lima, do Departamento de Geografia da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), em reportagem da BBC News Brasil, os igarapés são hoje “esgotos a céu aberto”, resultado de anos de descaso público e ocupações irregulares.

“Já vi jacaré em charco seco, mas isso aqui é outro nível de decadência”, expressou o Saci ao notar que o que deveria ser água era um caldo cinza que mais parecia saída de um caldeirão de bruxa.

E como se não bastasse, a cidade tinha sua própria versão do “morro carioca”: só que, aqui, a pobreza não subia, a pobreza descia — direto para os fundos dos vales. Era lá que moravam os esquecidos, entre o lixo e o cheiro de esgoto, distante dos abastados que se equilibravam nas alturas, cercados de ar-condicionado e ignorância.

“A geografia aqui não mente”, imaginou o Saci. “Quanto mais embaixo, mais duro o chão”.

O Saci, deficiente físico e lenda nacional, estava acostumado à falta de respeito. Mas ali, ele viu um novo patamar de desmazelo. O Código de Postura da cidade era um fantasma, talvez perdido nos arquivos mofados de alguma repartição pública. Ninguém respeitava nada: nem os rios, nem as pessoas, nem as árvores — ou o que restava delas.

“Até minha perna amputada parece mais bem cuidada do que essa cidade”, resmungou.

O Prosamim, prometido como solução, era um conto da carochinha. Escadarias quebradas, ruas que nunca viam asfalto e moradores que esperavam em vão pela dignidade que o poder público não tinha intenção de entregar.

Dados do IBGE

Dados do IBGE confirmam a desigualdade: Manaus, apesar de concentrar cerca de 51% da população do Amazonas e abrigar um dos maiores PIBs municipais do Brasil, tem 30% de sua população vivendo em áreas de risco, segundo o Censo de 2010.

“A lógica aqui é de lascar qualquer um, só sobrevive quem pode ou quem é imortal, como eu”, ironizou o Saci, dando um salto.

Milton Hatoum, um dos maiores autores da literatura contemporânea do país, nascido em Manaus, expressou sua visão crítica sobre a cidade em uma entrevista em 2013:

“Eu passei minha infância em Manaus e tenho uma relação afetiva muito forte com a cidade. Mas a verdade é que é uma cidade que tem um alto Produto Interno Bruto — um dos maiores do Brasil —, mas não possui calçadas.” E concluiu: “Sinto falta dos meus amigos e da minha família. Da cidade, só tenho saudades do Rio Negro. A Manaus que eu gostava acabou”.

Mas não era só miséria que se via em Manaus. Havia também resiliência. Dona Maria Adelaide, com quase 80 anos, lembrava do tempo em que o rip-rap tinha peixes e tartarugas, e sonhava com bananeiras e jirais.

“Se ela ainda sonha, quem sou eu pra desistir?”, desabafou o Saci, logo interrompido por um cheiro sulfídrico que subia do igarapé, como um tapa na cara da esperança.

Discursou o Saci: “Manaus, terra de contradições. Maior metrópole tropical do mundo, mas com rios mortos e favelas vivas. Ricos nas alturas e pobres afogados na lama. Eu, que sou lenda, não sei se dou risada ou se choro. Talvez os dois. Afinal, sou brasileiro, e isso aqui é Brasil”.

¹Articulista do Portal Meu Amazonas, Juscelino Taketomi, é Jornalista. Há 28 anos é servidor da Assembleia Legislativa do Amazonas (Aleam)

Leia mais:

Lendas Amazônicas: histórias que moldam cultura e floresta

Juscelino Taketomi
Juscelino Taketomihttps://portalmeuamazonas.com.br/
Jornalista, há 28 anos servidor da Assembleia Legislativa do Amazonas (Aleam)

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