A bola, as estrelas e a fé num mundo melhor

Em crônica, Juscelino Taketomi reflete sobre o fim da Copa do Mundo de 2026, a eliminação do Brasil, a magia de Messi e a surpresa de Cabo Verde.

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Por Juscelino Taketomi

Para mim, a Copa do Mundo de 2026, que se encerrou no último domingo, permanece suspensa no ar, como tardes em que o vento parece trazer notícias antigas, mas que ainda não aprendemos a decifrar.

Algo da Copa continua caminhando entre nós, invisível, como se uma parte da humanidade ainda estivesse reunida diante do mesmo gramado.

Sempre acreditei que o planeta respira de maneira diferente quando a bola começa a rolar numa Copa do Mundo.

Alguns chamarão isso de ingenuidade, dessas que o tempo insiste em não curar. Outros dirão tratar-se apenas do romantismo incurável de um cronista apaixonado demais.

Talvez tenham razão. Ainda assim, a verdade é que durante pouco mais de quarenta dias, bilhões de pessoas prenderam a respiração diante da mesma cobrança de falta, sorriram pelo mesmo gol improvável e silenciaram diante da mesma derrota.

São poucos os acontecimentos capazes de reunir tamanha parcela da humanidade sob uma única emoção. Quem sabe isso não deixe alguma marca?

Gosto de imaginar que os pensamentos também possuem peso, cor e movimento. Os antigos chamavam essa força de éter. Outros preferem dizer energia. Há quem fale em campo vibracional. Pouco importa o nome.

Prefiro acreditar que toda esperança lançada por uma mãe em Lagos, por um menino em Manaus, por um pescador no litoral mexicano, por uma professora em Buenos Aires ou por um velho operário em Lisboa sobe, silenciosamente, para envolver a Terra numa delicada atmosfera que os olhos físicos não são capazes de enxergar.

E durante uma Copa essa atmosfera parece brilhar um pouco mais. Não porque o futebol resolva os dramas do mundo. Não resolve. A fome continua existindo. As guerras continuam matando. O preconceito não tira férias. Mas, por alguns instantes, a humanidade recorda que ainda sabe celebrar alguma coisa em comum.

Alguém dirá que isso é pouco. Porém, num tempo em que quase tudo nos divide, descobrir alguma coisa que ainda nos une vale quase um milagre. Foi assim que tanto me incomodou ver a política atravessar as quatro linhas.

A Copa de EUA, México e Canadá, histórica por tantos motivos, tornou-se também um laboratório de interesses que pouco tinham a ver com a bola. Pela primeira vez, foi disputada por 48 seleções, espalhada por três países e consolidou uma expansão que a Fifa já sonha levar a 64 participantes em 2030, no centenário do torneio.

O futebol ganhou novos horizontes. Os negócios também. Nunca se vendeu tanta publicidade. Nunca houve tantas plataformas transmitindo partidas. Nunca patrocinadores ocuparam tantos espaços. O espetáculo cresceu de tamanho, e também de preço. Em alguns momentos, deu a impressão de que a bola dividia espaço com os interesses comerciais. E, pior ainda, com os interesses políticos.

As intervenções do presidente Donald Trump, relatadas ao longo da competição, produziram uma sensação desconfortável. Não apenas pelos episódios em si, mas porque expuseram uma Fifa excessivamente complacente diante do poder político. Subalterna. Capacha, quando nasceu para proteger a universalidade do futebol.

Sempre que a Fifa se curva às conveniências dos governos, por mais influentes que sejam, diminui um pouco o tamanho do próprio esporte. O futebol pertence aos povos. Nunca aos palácios. Não pertence a Trump, nem a Putin ou a Xi Jinping.

Felizmente, dentro das quatro linhas, a bola continuou lembrando quem realmente manda. Vi Lionel Messi disputar mais uma Copa como quem escreve poesia usando os pés. Messi parece conversar com ela.

Aos trinta e nove anos, o super craque continuou iluminando partidas com a serenidade dos grandes artistas que descobriram que a verdadeira genialidade mora na simplicidade. É um desses raros presentes que o futebol oferece uma vez por geração.

Ainda assim, existe uma montanha que permanece intocada. A montanha chama-se Edson Arantes do Nascimento. Pelé. O Rei não cabe nas comparações apressadas do nosso tempo. Aos vinte e nove anos já havia conquistado três Copas do Mundo. Três. E dificilmente alguém voltará a repetir semelhante façanha.

Mais do que levantar taças, Pelé transformou o futebol numa linguagem compreendida em todos os continentes e fez do Brasil uma palavra conhecida até onde os mapas ainda eram incompletos. É que existem grandezas que simplesmente não envelhecem.

Quanto ao nosso Brasil na Copa, que tristeza. Foi a nota destoante. Confesso que doeu. E doeu não porque caiu para a Noruega de Erling Haaland. Derrotas fazem parte da biografia de qualquer grande seleção. O que machucou foi outra coisa.

Faltou alma ao Escrete de Ouro. Faltou encantamento. Faltou aquela irreverência que sempre transformou o futebol brasileiro numa expressão espontânea da nossa própria alegria. Faltou a ginga de Garrincha e Ronaldinho Gaúcho.

Carlo Ancelotti carrega uma trajetória respeitável, mas nem mesmo um currículo extraordinário consegue substituir aquilo que sempre fez da camisa amarela um patrimônio afetivo do planeta.

O futebol brasileiro nunca foi apenas organização tática. Sempre foi invenção. Sempre foi liberdade. Sempre foi alegria. E alegria não cabe em pranchetas.

Talvez o fracasso tenha começado muito antes da estreia. Nos corredores da improvisação. Nas disputas de poder. Na ausência de um projeto capaz de sobreviver às mudanças de dirigentes.

Hexacampeonatos não se perdem em noventa minutos. Perdem-se lentamente, em muitos anos.

No entanto, termino esta Copa mais esperançoso do que comecei. Acredito que ela também revelou outra beleza.

A ampliação para quarenta e oito seleções permitiu que países tradicionalmente distantes dos holofotes escrevessem capítulos inesquecíveis.

Poucos simbolizaram isso melhor que Cabo Verde. O pequeno arquipélago africano lembrou ao mundo que o futebol continua sendo o território onde o improvável ainda pode vencer o previsível.

Enquanto os grandes discutiam cifras, estratégias comerciais e poder político, um país acostumado à discrição conquistava o direito de sonhar diante dos olhos do planeta. Foi uma das imagens mais bonitas desta Copa.

Nas ruas das cidades onde ocorreram os jogos, vi crianças trocando figurinhas sem perguntar nacionalidade. Vi desconhecidos se abraçando em aeroportos. Vi famílias interrompendo a correria da vida apenas para estarem juntas diante de uma televisão. Vi idiomas diferentes comemorando exatamente o mesmo gol.

Essas cenas continuam me parecendo muito mais importantes do que qualquer troféu. Há quem diga que o mundo caminha, inexoravelmente, para o ódio.

Prefiro acreditar que ainda existe uma maravilhosa reserva de bondade circulando entre as pessoas, esperando apenas uma oportunidade para se revelar.

Essa oportunidade pode aparecer num passe de Messi ou num drible espetacular de um Lamine Yamal, e pode sobreviver na memória eterna do incomparável Pelé. Pode florescer na coragem de uma seleção como Cabo Verde, ou ficar flutuando sobre todos nós, formada pela soma de bilhões de pensamentos bons que atravessaram o planeta durante tantas semanas de Copa.

Se o Universo realmente escuta as vibrações humanas, gosto de imaginar que guardou cada uma delas. E que, em algum lugar acima das nuvens, ficou registrado que, por alguns dias, a humanidade inteira voltou a fazer aquilo que parecia estar esquecendo. Sonhar ao mesmo tempo. Obrigado, futebol.

Juscelino Taketomi
Juscelino Taketomi

*Juscelino Taketomi é jornalista, colaborador do Portal Meu Amazonas e assessor especial na Assembleia Legislativa do Amazonas


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Juscelino Taketomi
Juscelino Taketomihttps://portalmeuamazonas.com.br/
Jornalista, há 28 anos servidor da Assembleia Legislativa do Amazonas (Aleam)

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