Manaus (AM) – A fumaça das queimadas deixou a qualidade do ar em Manaus na pior faixa de classificação no sábado, 17 de outubro. Às 6h30, a concentração média de partículas finas chegou a 401,4 microgramas por metro cúbico (µg/m³), segundo a Defesa Civil municipal.
Diante do cenário, a Prefeitura de Manaus suspendeu as atividades ao ar livre que promove até domingo, 18 de outubro. A Fiocruz Amazônia adiou o evento Fiocruz Pra Você, marcado para o mesmo sábado, Dia Nacional da Vacinação.
Também no sábado, o governador Roberto Cidade convocou em caráter de urgência o comitê estadual de enfrentamento a eventos climáticos. O Governo Federal anunciou mais aeronaves e uma comitiva de quatro ministros chega a Manaus no domingo.
Qualidade do ar em Manaus: o que os medidores registraram
A Secretaria Executiva de Proteção e Defesa Civil (Sepdec) calculou a média com base em 14 sensores da plataforma PurpleAir. A zona Norte teve a maior concentração, com 450 µg/m³. Em seguida vieram a Centro-Sul (416 µg/m³), a Sul (396 µg/m³), a Leste (391 µg/m³) e a Centro-Oeste (331 µg/m³).
O indicador mede o material particulado fino, conhecido como MP2,5. São partículas com até 2,5 micrômetros de diâmetro, pequenas o bastante para alcançar as partes mais profundas dos pulmões.
A estação do Projeto Fio Ares, instalada na sede da Fiocruz Amazônia, também registrou níveis críticos. A partir das 7h, as concentrações chegaram a 292 µg/m³, com valores horários entre “ruim” e “péssima”. A média parcial do dia ficou em 153 µg/m³.
Esse valor representa cerca de dez vezes o limite de 15 µg/m³ que a Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda para a média de 24 horas. Os números da prefeitura e da Fiocruz, porém, não são diretamente comparáveis: um reflete a média de vários sensores em um horário; o outro, a média parcial de uma única estação ao longo do dia.
A Sepdec atribui a piora a um novo aumento dos focos de calor no Amazonas, que empurra a fumaça para a capital.
Eventos suspensos e vacinação mantida nas UBS
A suspensão das atividades municipais ao ar livre vale até domingo. A prefeitura orienta a população a acompanhar os canais oficiais, já que a medida pode ser atualizada.
A Fiocruz Amazônia já havia transferido parte da programação para ambientes fechados e climatizados. Segundo a diretora da unidade, Stefanie Lopes, o evento ainda exigiria a circulação de centenas de pessoas entre espaços abertos, com exposição inevitável à fumaça. A instituição vai divulgar uma nova data conforme a evolução da qualidade do ar.
Quem pretendia se vacinar no evento pode procurar as Unidades Básicas de Saúde (UBS), que seguem com o atendimento.
Como se proteger da fumaça
A exposição à fumaça pode causar tosse, falta de ar e irritação nos olhos, no nariz e na garganta. Crianças, idosos, gestantes e pessoas com doenças respiratórias ou cardiovasculares correm mais risco.
“A fumaça das queimadas compromete a qualidade do ar e pode provocar desde irritações nos olhos e nas vias respiratórias até o agravamento de doenças como asma e bronquite”, afirma a enfermeira infectologista Ana Karoline Maia, professora do Centro Universitário Martha Falcão Wyden.
As orientações da Defesa Civil, da Fiocruz e da especialista coincidem:
- evitar exercícios e atividades ao ar livre nos horários de mais fumaça;
- ficar em ambientes internos, com portas e janelas fechadas;
- usar máscara PFF2 ou N95 bem ajustada ao rosto em deslocamentos inevitáveis;
- beber água com frequência;
- procurar atendimento de saúde em caso de falta de ar ou dificuldade para respirar.
Estado pede aviões de grande porte ao Governo Federal
Roberto Cidade convocou o Comitê Permanente de Enfrentamento a Eventos Climáticos e Ambientais (Copec) para definir novas medidas de combate, fiscalização e proteção à população. O governo não informou a data da reunião.
O governador afirmou que a população convive com a fumaça há dez dias e que muitos incêndios têm origem criminosa. A Delegacia Especializada em Meio Ambiente e Urbanismo (Dema) registrou, de janeiro a outubro, 90 ocorrências de incêndio em vegetação, entre 567 procedimentos sobre possíveis crimes ambientais.
O comandante-geral do Corpo de Bombeiros, coronel Orleilso Muniz, enviou no sábado um ofício ao Governo Federal com pedido de quatro aeronaves de grande porte. O reforço valeria de 25 de outubro a 25 de dezembro e incluiria transporte de tropas aos municípios.
“As grandes distâncias, a dificuldade de acesso a determinadas áreas e as limitações operacionais das aeronaves utilizadas atualmente tornam necessário o reforço com equipamentos de maior capacidade”, justificou o comandante.
Entre 1º de junho e 16 de outubro, os bombeiros atuaram em 22.557 focos de incêndio no Amazonas. Desse total, 4.598 ocorreram na capital e 17.959 no interior. Cerca de mil bombeiros e brigadistas participam das operações.
O estado está em situação de emergência desde 10 de outubro, por 180 dias, conforme o Decreto nº 55.751. O texto cita o El Niño, com previsão de chuvas abaixo da média e temperaturas elevadas. O uso do fogo também está proibido em todo o Amazonas por 120 dias.
Governo Federal amplia frota de 11 para 16 aeronaves
O Governo Federal anunciou cinco aeronaves adicionais para o combate aos incêndios no Amazonas. Entre elas está um segundo avião KC-390, da Força Aérea, que pode lançar até 19 mil litros de água por saída. O reforço inclui helicópteros para áreas de difícil acesso.
O anúncio não detalha se as novas aeronaves atendem ao pedido feito pelos bombeiros do estado.
A Defesa Civil Nacional empenhou R$ 14 milhões para apoio logístico, equipamentos de proteção e a contratação de duas aeronaves. A Polícia Federal, a Polícia Rodoviária Federal e as Forças Armadas também vão reforçar as operações, com efetivos ainda não definidos.
Desde 9 de outubro, quando começou o apoio federal, as aeronaves lançaram cerca de 600 mil litros de água em 260 horas de voo. O Ibama contabiliza 317 incêndios extintos na temporada.
Na saúde, o Ministério da Saúde instala na terça-feira, 20 de outubro, uma base da Força Nacional do SUS em Manaus. Segundo o governo, a rede de saúde ainda não registrou sobrecarga por causa da fumaça, e a medida tem caráter preventivo.
O que esperar nos próximos dias
A comitiva federal chega a Manaus no domingo, 18 de outubro, com os ministros João Paulo Capobianco (Meio Ambiente), Wellington César Lima e Silva (Justiça), José Múcio Monteiro (Defesa) e Waldez Góes (Integração). O grupo vai coordenar a ampliação das ações com o governo estadual.
A Sepdec mantém o monitoramento da qualidade do ar e deve divulgar novas leituras ao longo do fim de semana. A decisão sobre prorrogar ou não a suspensão das atividades municipais também depende desses números.
Com informações da Prefeitura de Manaus, da Fiocruz Amazônia, do Governo do Amazonas, da Secom da Presidência da República e do Centro Universitário Martha Falcão Wyden.
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