Ayahuasca: planta da Amazônia desafia estudos e tradições

Ayahuasca, chá sagrado da Amazônia conhecido por suas propriedades psicoativas e espirituais, tem despertado interesse e curiosidade há séculos. De missionários e viajantes no século XVII até os seguidores dedicados da atualidade, a ayahuasca tem ganhado destaque no cenário literário e religioso, especialmente no Brasil, onde se encontra uma tradição de cultivo e consumo da planta.

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Ayahuasca, chá sagrado da Amazônia conhecido por suas propriedades psicoativas e espirituais, tem despertado interesse e curiosidade há séculos. De missionários e viajantes no século XVII até os seguidores dedicados da atualidade, a ayahuasca tem ganhado destaque no cenário literário e religioso, especialmente no Brasil, onde se encontra uma tradição de cultivo e consumo da planta.

As propriedades da planta que misturam ciência e sincretismo religioso desafiam pesquisadores.

Pesquisas

Estudo conduzido por Henrique Fernandes Antunes, da Universidade Federal de Santa Catarina, analisou a literatura antropológica e a história do uso da ayahuasca no país, proporcionando insights sobre suas origens e transformações ao longo do tempo.

Segundo o estudo, as primeiras menções à ayahuasca remontam ao final do século XVII, em obras de jesuítas como Chante e Magnin. Chante se referiu ao chá como um “brebaje diabólico”, enquanto Magnin o descreveu como parte da medicina utilizada pelos índios de Mainas, na Amazônia Peruana.

Antropologia

A antropologia desempenha um papel fundamental na documentação do uso ancestral da ayahuasca por tribos indígenas da Amazônia.

Desde a década de 80, o estudo da ayahuasca expandiu-se para abranger seu culto nas áreas urbanas, resultando em uma ampla gama de abordagens etnobotânicas e investigações sobre seus usos terapêuticos.

Sistemas de Juramidam

A dissertação de Clodomir Monteiro, citada como a primeira pesquisa brasileira sobre o fenômeno em 1983, destaca que os “Sistemas de Juramidam” fazem parte da história e da estrutura ecológico-cultural da Amazônia. Essa pesquisa revelou a presença de elementos provenientes da tradição indígena, do cristianismo, do espiritismo kardecista, de práticas afro-brasileiras e do esoterismo europeu.

Outros estudos também enriqueceram o campo acadêmico da ayahuasca. Luís Eduardo Luna, em sua pesquisa de 2005, listou setenta e duas tribos indígenas na região amazônica brasileira que utilizam essa substância em seus rituais.

Por meio dessas pesquisas, foi possível compreender melhor as matrizes religiosas das religiões ayahuasqueiras, incluindo o xamanismo amazônico, o catolicismo popular, influências afro-brasileiras e elementos esotéricos.

Além disso, o estudo de Antunes destaca que a transmissão e disseminação do uso da ayahuasca entre não indígenas estão relacionadas às transformações na vida amazônica, como a formação de seringais e o fim do ciclo da borracha, bem como o contato entre caboclos e indígenas. Esse intercâmbio cultural resultou na evolução dos conceitos e práticas relacionadas à ayahuasca.

Tradição indígena

A Doutrina do Daime ganhou destaque como uma recodificação da tradição indígena, incorporando elementos do cristianismo, espiritismo, religiões afro-brasileiras e esoterismo. O Mestre Irineu, fundador da Doutrina do Daime, desempenhou um papel fundamental na disseminação desses ensinamentos e na formação de uma comunidade dedicada.

Religiosidade cabocla

Uma questão intrigante que ainda desafia os acadêmicos é o sincretismo presente na União do Vegetal, que combina elementos da religiosidade cabocla com o uso da ayahuasca.

Estudos futuros serão necessários para aprofundar essa relação entre xamanismo, Doutrina do Daime e catolicismo, buscando compreender como essas influências se entrelaçam na prática religiosa.

A pesquisa de Henrique Fernandes Antunes destaca a importância da preservação do meio ambiente no contexto da Doutrina do Daime. Ensina a viver em harmonia com o planeta, reconhecendo a interconexão entre o ser humano e a natureza. Outros estudos também enfatizam a relação entre a ayahuasca e a floresta amazônica.

História Oral na obra sobre “Vovô Irineu”

A pesquisa de história oral apresentada na obra “Vovó Irineu”, prevista para ser lançada em breve, traz vivências de seguidores antigos, como caboclos, seringueiros e agricultores, que desempenharam um papel fundamental na instituição da Doutrina do Daime. Essas vivências revelam práticas ritualísticas e características herdadas e aprendidas a partir dos ensinamentos do Mestre Irineu, que encontram sua origem no poder da floresta.

Com mais de 80% do território coberto por floresta nativa, o estado do Acre, onde essa tradição está enraizada, é considerado berço da tradição no Brasil.

Como disse o próprio Mestre Irineu: “aqui tem muita ciência que é preciso se estudar”.

A ayahuasca e as culturas que a envolvem são um campo de estudo em constante evolução, que demanda investigação acadêmica contínua e respeito pelas tradições ancestrais.

Professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ, Francisco Prosdocimi diz que tanto os grupos indígenas como as entidades religiosas costumam usar o chá em um contexto ritualístico.

“A principal característica da ayahuasca é a capacidade de estimular o aguçamento dos sentidos e ampliar a cognição, provocando um efeito enteógeno”, diz.

O termo enteógeno é usado para descrever efeitos de alteração de consciência que buscam a conexão com o divino, diferenciando-se, portanto, do termo alucinógeno, que não incorpora em si essa busca pela comunhão com o sagrado.

Hoje em dia, o chá ayahuasca já é utilizado em dezenas de países, incluindo nações extremamente distantes do continente americano onde ele se originou, como a Austrália e o Japão. De uma perspectiva mais geral, os objetivos do projeto incluem a ampliação do conhecimento sobre a biodiversidade brasileira e a valorização do conhecimento tradicional indígena.

Mistura de plantas

Embora o chá ayahuasca possa ser preparado de diversas formas, uma das mais comuns, e que é a adotada pelos grupos religiosos, envolve o uso de duas espécies de plantas.

Segundo esta prática, o cipó Banisteriopsis caapi, também conhecido como jagube ou mariri, e a arbustiva Psychotria viridis, que é chamada chacrona ou rainha, são macerados e submetidos a um cozimento prolongado, que resulta na preparação da bebida.

Os cientistas já sabem que as alterações na consciência do chá da ayahuasca são causadas pela ação bioquímica de duas substâncias principais: a dimetiltriptamina (DMT), encontrada nas folhas da chacrona, e alcaloides presentes no cipó mariri, que prolongam e potencializam o efeito da DMT.

Pesquisa da UFRJ que trabalha no sequenciamento detalhado do genoma destas plantas da Amazônia, além de aumentar o conhecimento sobre suas propriedades, também pode abrir possibilidades para a produção de conhecimento aplicado a partir da flora brasileira.

Uma vez estabelecido o perfil desse genoma, o grupo de pesquisadores quer identificar quais os genes da Psychotria viridis  associados à produção de enzimas responsáveis pelas substâncias psicoativas que ocasionam o fenômeno de alteração de consciência em quem bebe o chá.

Referências:

Antunes, H. F. (2023). Literatura antropológica e a reconstituição histórica do uso da ayahuasca no Brasil.
Luna, L. E. (2005). Ayahuasca, enteógenos y cultura. Libros en red.
Monteiro, C. (1983). Juramidam: Uma tradição indígena em terras amazônicas. Dissertação de mestrado, Universidade Federal do Acre.
“Vovó Irineu” (a ser lançado em julho de 2023) – pesquisa de história oral.

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