Especialistas alertam para risco de seca severa, rios abaixo da média, queimadas e calor extremo na Amazônia com o possível retorno do El Niño em 2026
O possível retorno do fenômeno climático El Niño em 2026 já preocupa meteorologistas e cientistas do clima pelos impactos esperados sobre a Amazônia.
Segundo boletim do Centro de Previsão Climática (CPC) da NOAA divulgado em 20 de abril de 2026, a probabilidade de formação do El Niño supera 60% a partir do trimestre maio–junho–julho, podendo ultrapassar 90% no segundo semestre.
Modelos climáticos internacionais e análises do Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) e da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) confirmam o aumento acelerado dessa probabilidade.
O El Niño ocorre quando as águas do Oceano Pacífico Equatorial ficam mais quentes do que o normal. Esse aquecimento altera a circulação atmosférica global e modifica o regime das chuvas em diversas regiões do planeta. Na Amazônia, historicamente, o fenômeno costuma provocar redução das chuvas, aumento das temperaturas e agravamento das secas.
Amazônia pode enfrentar nova seca extrema

As projeções climáticas indicam que a Amazônia pode voltar a enfrentar um cenário semelhante ao registrado em 2023 e 2024, quando rios atingiram níveis historicamente baixos e milhares de comunidades ficaram isoladas. Segundo nota técnica do INMET publicada em 24 de abril de 2026, o El Niño tende a agravar a estiagem e aumentar o risco de perdas nas regiões Norte, Nordeste e partes do Centro-Oeste e Sudeste do Brasil.
O climatologista Carlos Nobre, referência internacional em estudos da Amazônia, alerta em diferentes pesquisas que o desmatamento combinado a secas repetidas compromete a capacidade da floresta de reciclar a própria umidade — mecanismo essencial para a manutenção das chuvas na região. Sem essa reciclagem, a estação seca se torna progressivamente mais longa e intensa, aproximando partes da Amazônia a um ponto de degradação difícil de reverter.
“A floresta só existe quando a estação seca é curta. Ela foi evoluindo com um sistema próprio e eficiente de reciclagem de água pelas árvores, o que aumentou a chuva e diminuiu a duração da estação seca.”
Carlos Nobre, climatologista — entrevista ao Mongabay, janeiro de 2023
Risco elevado de queimadas e fumaça
Com menos chuva e temperaturas mais altas, o risco de queimadas cresce rapidamente. O solo e a vegetação ficam mais secos, favorecendo incêndios florestais de grande escala.
Durante eventos fortes de El Niño, a Amazônia costuma registrar aumento expressivo nos focos de calor. Cientistas associam esse cenário à combinação entre estiagem severa e ação humana sobre áreas desmatadas.
Nota técnica do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) aponta que, durante o El Niño de 2015–2016, as queimadas e incêndios atingiram aproximadamente 37 mil km² na Amazônia. O pesquisador Philip Fearnside, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), alerta que períodos prolongados de seca ampliam o risco de incêndios descontrolados na região.
Rios podem voltar a registrar níveis críticos
A redução das chuvas pode afetar diretamente o nível dos rios amazônicos. Em secas severas, embarcações deixam de circular em alguns trechos, comunidades ficam isoladas e o abastecimento de alimentos e combustíveis sofre impacto grave.
Em Manaus, eventos recentes mostraram como a estiagem extrema afeta o transporte fluvial, principal meio logístico de muitas regiões do Amazonas.
Especialistas apontam que um El Niño forte também pode prejudicar a pesca, provocar mortandade de peixes e aumentar as dificuldades no abastecimento de água nos municípios do interior do estado.
Calor extremo deve aumentar na região
Outro efeito esperado é o aumento das temperaturas. O bloqueio de chuvas favorece ondas prolongadas de calor e baixa umidade do ar. Em análise publicada em 20 de abril de 2026, a MetSul Meteorologia registrou que o Pacífico Equatorial atingiu pela primeira vez no ano uma anomalia de temperatura em patamar de El Niño (+0,5°C) e projetou que o fenômeno deve se consolidar entre o fim do outono e o início do inverno — possivelmente em meados de maio ou no mais tardar em junho de 2026.
Por que o El Niño preocupa tanto a Amazônia
O fenômeno altera a circulação de umidade sobre a América do Sul. Com isso, parte da umidade que normalmente alimentaria as chuvas amazônicas deixa de avançar sobre a região. Os efeitos esperados incluem:
- Redução das chuvas e estiagem prolongada
- Rios abaixo da média histórica
- Aumento de queimadas e focos de incêndio
- Calor extremo e baixa umidade do ar
- Impactos na agricultura e na pesca
- Piora da qualidade do ar por fumaça
Saiba mais
O El Niño integra o sistema climático ENOS (El Niño-Oscilação Sul), que altera padrões de chuva globalmente. Eventos fortes ocorreram em 1982, 1997, 2015 e 2023. Cientistas alertam que o aquecimento global pode intensificar os efeitos desses episódios. O INMET monitora as atualizações do CPC/NOAA e publica boletins em portal.inmet.gov.br.
Fontes: INMET (nota técnica, 24/04/2026) · NOAA/CPC (boletim, 20/04/2026) · MetSul Meteorologia (20/04/2026) · Carlos Nobre (Mongabay, jan/2023) · Cemaden (nota técnica El Niño 2015–2016)
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