Indígena Sateré-Mawé faz descoberta inédita sobre cogumelos e amplia conhecimento científico na Amazônia

Indígena Sateré-Mawé descobre novas espécies de cogumelos na Amazônia em pesquisa do Inpa, ampliando conhecimento científico.

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Pesquisa do Inpa identifica novas espécies consumidas por indígenas e reforça valor do conhecimento tradicional


Pesquisa inédita amplia conhecimento sobre cogumelos na Amazônia

Manaus (AM) – O pesquisador indígena Tyson Ferreira-Sateré, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, identificou 10 espécies de cogumelos comestíveis ainda não registradas para povos amazônicos, em estudo que amplia o conhecimento científico sobre a biodiversidade da região.

A pesquisa, desenvolvida no âmbito do programa de pós-graduação em Ecologia, analisou o consumo tradicional do povo Sateré-Mawé na região do baixo Rio Andirá, no Amazonas.

O pesquisador indígena Tyson Ferreira-Sateré, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, identificou 10 espécies de cogumelos comestíveis ainda não registradas para povos amazônicos
O pesquisador indígena Tyson Ferreira-Sateré, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, identificou 10 espécies de cogumelos comestíveis ainda não registradas para povos amazônicos

Na pesquisa, o biólogo detalhou que a espécie é comum nos trópicos e pertence ao filo Ascomycota, diferente da maioria dos cogumelos comestíveis mais conhecidos: os Basidiomycota.

O cogumelo Cookeina tricholoma tem formato semelhante a uma pequena cuia, com presença de “pelos” na superfície externa e coloração alaranjada, podendo crescer rente ao substrato ou apresentar estipe (um “pezinho”).

O fungo, utilizado na alimentação da comunidade Sateré-Mawé, tradicionalmente preparado no formato de pukecas (recipiente feito com folhas de bananeira, utilizado para assados). Geralmente termina servido em comemorações ou eventos abertos ao público.


Estudo une ciência e conhecimento tradicional

O trabalho documenta o uso alimentar dos cogumelos e registra, pela primeira vez, a espécie Cookeina tricholoma no município de Barreirinha.

O estudo valoriza saberes tradicionais, não registrados pela ciência formal.

“A minha maior surpresa foi saber que há mais de 350 anos o povo Sateré-Mawé tem contato com jesuítas, naturalistas e diversos pesquisadores, mas o conhecimento etnomicológico deles ainda não havia sido registrado. Estou muito feliz que o próprio provedor do conhecimento está fazendo esta história”, comemora a pesquisadora do Inpa e orientadora do trabalho, Noemia Ishikawa, que é líder do grupo de pesquisa Cogumelos da Amazônia.


Descoberta amplia número de espécies conhecidas

Até então, apenas 35 espécies de cogumelos comestíveis haviam sido registradas na Amazônia brasileira. Com a nova pesquisa, o número sobe para 45.

Além do valor alimentar, os fungos desempenham papel ecológico fundamental na decomposição e reciclagem de nutrientes da floresta.


Protagonismo indígena marca avanço científico

A pesquisa também representa um marco na produção científica conduzida por indígenas, fortalecendo a integração entre conhecimento tradicional e ciência acadêmica.


Protagonismo indígena

Nascido em Manaus e criado na comunidade Ponta Alegre, terra indígena Andirá-Marau, município de Barreirinha, no Amazonas, Tyson Ferreira-Sateré conta que sua principal motivação para a pesquisa foi valorizar o conhecimento tradicional Sateré-Mawé e contribuir para a conservação biocultural da floresta amazônica. Ele se emociona ao falar da conclusão desta etapa acadêmica.

“Este momento representa uma grande conquista pessoal e familiar. Concluir o mestrado com base nos nossos próprios conhecimentos tradicionais, valorizando a floresta em pé — que é parte fundamental da nossa identidade e modo de vida — é algo muito significativo para mim e para o meu povo. É a prova de que é possível fazer ciência a partir das nossas raízes, sem abrir mão da nossa cultura”, ressalta.

O reconhecimento também vem da orientadora, Noemia Ishikawa, que elogiou a forma como o mestrando trouxe o conhecimento tradicional para dentro do Inpa, juntando os saberes da Amazônia, estabelecendo o diálogo com a ciência – experimentos e equipamentos, como a microscopia eletrônica de varredura – pois tudo isso colaborou para a qualidade de sua produção científica.

“As pessoas estudam, geralmente, os alimentos e os costumes das comunidades indígenas em seus artigos. Hoje tivemos uma grande virada de chave na ciência, onde o próprio indígena faz a sua própria ciência, levando-a de volta para a sua comunidade. Espero que o exemplo dele seja seguido por muitos, tanto para virem estudar, como ele está fazendo, quanto para retornar à comunidade com as suas devolutivas e com seus conhecimentos”, observou a orientadora. 

SAIBA MAIS

O Inpa é uma das principais instituições de pesquisa da Amazônia e desenvolve estudos voltados à biodiversidade, clima e conservação ambiental.

Pesquisas etnobiológicas têm ganhado destaque por integrar saberes tradicionais aos estudos científicos.

Fontes: Inpa; pesquisadores do estudo


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