Escassez hídrica no Brasil avança e já atinge rios da Amazônia, alertam pesquisadores

Pesquisadores do Inpe alertam que o país está deixando para trás a imagem de abundância de água. O diagnóstico cita a seca histórica do Rio Negro em Manaus, o avanço da exploração de aquíferos e perdas de água

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O Brasil, tradicionalmente uma das nações mais ricas em recursos hídricos do planeta, enfrenta um cenário crescente de escassez de água. O alerta foi feito pelos pesquisadores Carlos Nobre e Myanna Lahsen, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), com base em diagnóstico apresentado pela Organização das Nações Unidas (ONU).

Segundo os especialistas, a demanda por água doce já supera a capacidade de reposição em diversas regiões do mundo, fenômeno que a ONU classifica como uma nova era de “falência global da água”.

Nesse cenário, rios, lagos, aquíferos e reservas subterrâneas perdem capacidade de recuperação devido ao uso excessivo e às mudanças ambientais.

Embora represente entre 12% e 16% da água doce renovável do planeta, o Brasil enfrenta uma distribuição desigual desses recursos. De acordo com os pesquisadores, cerca de 35 milhões de brasileiros ainda não possuem acesso adequado à água potável.

A situação também preocupa na Amazônia. Em 2024, o Rio Negro registrou, em Manaus, a menor cota observada em mais de um século de monitoramento, afetando comunidades ribeirinhas, o transporte fluvial e o abastecimento de diversas localidades.

Agricultura concentra maior consumo

Os pesquisadores apontam que aproximadamente 58,5% da água doce utilizada no país é destinada à agricultura. Uma parcela significativa dessa água está associada à produção de commodities exportadas para mercados internacionais, como a China e a Europa.

O estudo citado pelos autores indica que parte da produção agropecuária destinada à exportação utiliza recursos hídricos provenientes de regiões que já enfrentam níveis elevados de escassez.

Aquíferos sob pressão

Outro ponto de preocupação é o aumento da exploração de águas subterrâneas. Com a redução da disponibilidade de água superficial em algumas regiões, cresce a dependência dos aquíferos para abastecimento urbano e atividades econômicas.

Segundo os pesquisadores, mais da metade dos poços analisados no país está localizada em áreas onde os aquíferos apresentam sinais de esgotamento e onde os rios registram redução de vazão, especialmente em polos de agricultura intensiva.

A retirada excessiva dessas reservas pode comprometer nascentes e cursos d’água, uma vez que os aquíferos ajudam a manter o fluxo dos rios durante períodos de estiagem.

Mudanças climáticas ampliam riscos

Os especialistas afirmam que as mudanças climáticas intensificam secas, ondas de calor e eventos extremos, mas destacam que o problema não se limita ao clima.

Entre os fatores apontados estão falhas na gestão dos recursos hídricos, desperdício, poluição e fiscalização insuficiente do uso da água.

Atualmente, o Brasil perde cerca de 38% da água captada para abastecimento antes que ela chegue aos consumidores, segundo os dados apresentados no artigo.

O que pode acontecer

Na avaliação dos pesquisadores, o país ainda possui condições para evitar um agravamento do quadro, desde que fortaleça o monitoramento do uso da água, reduza perdas nos sistemas de abastecimento e amplie o controle sobre a exploração de águas subterrâneas.

Eles defendem que a água seja tratada como um bem comum estratégico para a segurança alimentar, o desenvolvimento econômico e a qualidade de vida da população.

A análise conclui que ignorar os sinais de esgotamento dos recursos hídricos pode ampliar desigualdades sociais e aumentar os impactos ambientais em diversas regiões do país, incluindo a Amazônia.


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