Manaus (AM) – Uma pesquisa científica desenvolvida por pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp) revelou que um fungo identificado na Amazônia pode abrir caminho para uma nova geração de cosméticos naturais.
O pigmento vermelho extraído da espécie Talaromyces amestolkiae, originalmente identificada pela professora Maria Francisca Simas Teixeira, da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), demonstrou potencial para substituir corantes sintéticos utilizados em produtos como cremes faciais, xampus e bastões em gel.
Além de conferir coloração às formulações, o composto apresentou propriedades antioxidantes e antibacterianas durante os testes laboratoriais, reforçando seu potencial para aplicação na indústria cosmética.
Descoberta une ciência e biodiversidade amazônica
Embora o estudo tenha sido conduzido pela Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Unesp, em Araraquara (SP), a origem amazônica do fungo coloca a biodiversidade da região no centro de uma pesquisa que pode gerar novos produtos de alto valor agregado.
A investigação, liderada pela pesquisadora Juliana Barone Teixeira, sob orientação da professora Valéria de Carvalho Santos-Ebinuma, contou com colaboração da Universidade de Lisboa e da Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto da USP.
Os resultados, publicados na revista científica ACS Omega, receberam apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP).
Corante mostrou segurança nos testes
Os pesquisadores incorporaram o pigmento natural em diferentes formulações cosméticas e avaliaram sua estabilidade e segurança.
Nos experimentos, o composto reduziu em mais de 75% os marcadores relacionados ao estresse oxidativo, associado ao envelhecimento celular, e manteve a viabilidade de mais de 60% das células analisadas, indicando compatibilidade para aplicações na pele.
“Conseguimos demonstrar que esse colorante pode ser aplicado em formulações cosméticas mantendo a segurança, a funcionalidade, a textura e o desempenho de forma geral, sem causar nenhum impacto na formulação e na experiência dos possíveis clientes”, afirmou a pesquisadora Juliana Barone Teixeira.
Alternativa aos corantes sintéticos
O interesse pelo desenvolvimento de pigmentos naturais acompanha uma tendência mundial.
Diversos países vêm restringindo o uso de corantes sintéticos em produtos de consumo devido à associação dessas substâncias com reações alérgicas e outros potenciais riscos à saúde. Ao mesmo tempo, cresce a demanda da indústria por ingredientes de origem natural e produzidos de forma sustentável.
Segundo os pesquisadores, a cor continua sendo um dos principais fatores que influenciam a decisão de compra de cosméticos, tornando o desenvolvimento de pigmentos naturais uma oportunidade tecnológica e comercial.
Pesquisa começou há mais de dez anos
O trabalho é resultado de mais de uma década de estudos sobre o fungo amazônico.
Durante esse período, os pesquisadores aperfeiçoaram métodos de cultivo capazes de reproduzir em laboratório condições semelhantes às encontradas na Amazônia, incluindo temperaturas elevadas favoráveis ao desenvolvimento da espécie.
A equipe agora trabalha para ampliar a produção em escala industrial e avaliar novas aplicações do pigmento nas indústrias alimentícia e têxtil.
Bioeconomia ganha novo exemplo
A descoberta reforça o potencial da biodiversidade amazônica para gerar inovação sem necessidade de exploração predatória da floresta.
Em vez da extração de recursos naturais em larga escala, pesquisas desse tipo demonstram que microrganismos encontrados na Amazônia podem originar tecnologias capazes de agregar valor à economia regional, impulsionando setores como cosméticos, alimentos, fármacos e biotecnologia.
O que é o Talaromyces amestolkiae?
O Talaromyces amestolkiae é um fungo microscópico capaz de produzir pigmentos naturais em laboratório.
Além da coloração intensa, os pesquisadores identificaram propriedades antioxidantes e antibacterianas que podem ampliar seu uso em diferentes segmentos industriais.
SAIBA MAIS
O estudo foi publicado na revista científica ACS Omega e contou com apoio da FAPESP, da Unesp, da UFAM, da USP e da Universidade de Lisboa, reforçando a colaboração entre instituições brasileiras e internacionais no desenvolvimento de tecnologias baseadas na biodiversidade amazônica.
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