Pesquisa da UFPA sustenta que narrativa popular pode ter sido usada, em alguns casos, para silenciar estupros e gravidezes forçadas de meninas e mulheres
A imagem do boto sedutor atravessa gerações na Amazônia. Vestido de branco, ele sai do rio, dança nas festas ribeirinhas, conquista mulheres e desaparece antes do amanhecer.
Mas um estudo publicado na revista científica Direito e Práxis sugere uma leitura menos folclórica da lenda. Pesquisadoras da Universidade Federal do Pará (UFPA) defendem que, em determinados contextos históricos e sociais, a narrativa do boto pode ter servido para encobrir violência sexual, estupros e gravidezes forçadas de meninas e mulheres amazônicas.
A pesquisa, assinada por Sandra Suely Moreira Martins Lurine Guimarães e Fernanda de Souza Salame, da UFPA, não afirma que toda história envolvendo o boto esteja ligada à violência. Para as autoras, em situações específicas — sobretudo em comunidades marcadas por silêncio familiar e vulnerabilidade social —, a explicação do “filho do boto” teria funcionado como proteção simbólica diante de um agressor conhecido.
Quando o mito entra no lugar do agressor
Segundo o estudo, a lenda do boto oferecia uma resposta socialmente aceita para gravidezes sem paternidade reconhecida ou cercadas de constrangimento.
Isso poderia evitar a exposição pública de casos de estupro, inclusive dentro da própria família. Em vez de apontar o autor da violência, a comunidade recorria ao encantamento do boto como explicação possível.
As autoras associam determinadas versões da lenda a contextos coloniais marcados por abuso sexual e relações desiguais de poder, quando gestações sem paternidade reconhecida terminaram explicadas pelo encantamento do boto.
A pesquisa cita a juíza Núbia Guedes, do Amapá, que decidiu investigar a relação entre a lenda e violência sexual depois de crescer ouvindo histórias sobre o boto.
“São histórias dramáticas de violência sexual, contra crianças, meninas, geralmente cometida por pessoas da família”, afirmou a magistrada ao comentar casos analisados durante sua investigação.
Segundo Núbia Guedes, muitas vítimas não revelavam a identidade do agressor por medo, vergonha ou dependência econômica. Em outros casos, o autor do abuso fazia parte da própria família.
A violência que permanece fora do folclore
O artigo cruza a discussão cultural com um problema ainda presente na Amazônia: a exploração sexual de meninas e mulheres em áreas de pobreza extrema, rotas fluviais isoladas e territórios afetados pelo garimpo ilegal.
As pesquisadoras citam dados históricos do Disque 100, que registrou milhares de denúncias de abuso e exploração sexual infantil na Amazônia Legal, com destaque para Pará, Maranhão e Amazonas. O estudo também reúne pesquisas sobre tráfico de mulheres nos estados amazônicos.
As pesquisadoras citam ainda casos investigados em áreas de garimpo ilegal, onde adolescentes acabaram encontradas em situação de exploração sexual, cenário já documentado por órgãos de fiscalização e veículos nacionais.
O que o estudo defende — e o que não defende
As autoras não reduzem a lenda amazônica a esse significado e não afirmam que toda narrativa sobre o boto esconda violência sexual.
Para elas, mitos populares podem assumir funções diferentes dependendo do contexto social. Em parte da Amazônia, a história do boto pode ter servido como mecanismo de silêncio diante de uma violência que nem sempre podia ser denunciada.
A discussão reaparece em um momento em que Pará, Amazonas e Maranhão ainda registram índices elevados de violência sexual infantil e em que comunidades ribeirinhas e áreas pressionadas pelo garimpo ilegal seguem entre as mais vulneráveis do país.
Transparência editorial: Esta reportagem contou com apoio de ferramentas de inteligência artificial em etapas auxiliares de pesquisa, organização de informações e otimização editorial. A apuração, checagem factual, validação de fontes científicas e supervisão jornalística foram realizadas pela equipe do Portal Meu Amazonas, com responsabilidade editorial humana.
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