Amazônia nunca foi “intocada”, dizem cientistas

Cientistas contestam mito da Amazônia intocada e apontam influência indígena na floresta

Data:

Compartilhe esse post:


Relatório da Academia Brasileira de Ciências aponta que povos indígenas transformaram partes da Amazônia durante milhares de anos, influenciando a vegetação, a biodiversidade e até paisagens ainda presentes no Amazonas


Manaus (AM) – Durante décadas, a imagem da Amazônia como uma floresta completamente selvagem e intocada dominou livros didáticos, discursos ambientais e o imaginário popular. Mas um grupo de cientistas brasileiros afirma que essa ideia pode estar incompleta.

Segundo um relatório publicado em 2025 pela Academia Brasileira de Ciências (ABC), povos indígenas moldaram partes importantes da floresta amazônica ao longo de milhares de anos, manejando plantas, enriquecendo solos e transformando paisagens muito antes da chegada dos colonizadores europeus.

A conclusão não significa que a Amazônia tenha sido destruída ou artificialmente criada por humanos. O que os pesquisadores descrevem é algo mais complexo: uma relação contínua entre povos originários e floresta, capaz de alterar ecossistemas sem eliminá-los.

“Os primeiros habitantes amazônicos não eram simples caçadores e coletores, mas manejavam a vegetação ao redor de seus assentamentos”, afirmam os pesquisadores Denise Maria Cavalcante Gomes, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e Charles Clement, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), no capítulo sobre Amazônia antiga do relatório.

O que significa dizer que a floresta foi “domesticada”?

Cientistas apontam que populações indígenas influenciaram o crescimento de espécies de plantas úteis para a alimentação e modificaram o ambiente ao redor das aldeias (Foto: IA/Openai)

A ciência chama esse processo de domesticação da paisagem.

Os pesquisadores não afirmam que toda a Amazônia foi transformada por ação humana, mas que partes importantes da paisagem carregam sinais de manejo ancestral.

Na prática, significa que populações indígenas influenciaram o crescimento de espécies úteis, ampliaram áreas com alimentos e modificaram o ambiente ao redor das aldeias ao longo de séculos.

Em vez de derrubar grandes extensões de floresta, esses grupos favoreceram espécies de interesse alimentar, medicinal e cultural.

Hoje, pesquisadores apontam que árvores como castanheira, açaí, babaçu e outras plantas amazônicas aparecem em maior abundância em áreas historicamente ocupadas por povos indígenas.

Um estudo publicado na revista científica Science em 2017 mostrou efeitos persistentes da domesticação pré-colonial sobre a composição das florestas amazônicas, indicando forte associação entre antigos sítios arqueológicos e espécies úteis às populações humanas.

O mito da floresta “virgem”

A ideia de uma Amazônia completamente intocada ganhou força no século XIX, quando naturalistas europeus percorreram a região e encontraram populações indígenas drasticamente reduzidas após epidemias e violência colonial.

Segundo o relatório da ABC, cerca de 95% da população indígena teria sido dizimada após a conquista europeia, o que contribuiu para consolidar a percepção de uma floresta vazia e pouco habitada.

Esse entendimento começou a mudar nas últimas décadas.

Pesquisas arqueológicas, ecológicas e antropológicas revelaram evidências de grandes aldeias, sistemas de manejo agrícola, estradas antigas e áreas de floresta enriquecidas por ação humana.

A ciência também encontrou evidências de terra preta antropogênica, um solo escuro e extremamente fértil criado por antigos povos amazônicos a partir do acúmulo intencional e não intencional de matéria orgânica.

Siga o Portal Meu Amazonas pelo Instagram Clique aqui.

O que Manaus tem a ver com isso?

Pesquisadores identificaram grandes aldeias antigas nas proximidades da atual Manaus, Capital do Amazonas (Foto: IA/Openai)

A descoberta não está distante da realidade amazonense.

Pesquisadores identificaram grandes aldeias antigas nas proximidades da atual Manaus, algumas ocupadas durante longos períodos e associadas à presença de terra preta antropogênica — um dos sinais mais fortes de ocupação humana densa e permanente na Amazônia Central.

Esses achados ajudam a desmontar outra ideia antiga: a de que populações amazônicas viviam apenas em pequenos grupos isolados e sem grande organização social.

Há evidências de aldeias conectadas, manejo de recursos naturais e formas sofisticadas de adaptação ao ambiente tropical.

Em Santarém, no Pará, pesquisadores identificaram um dos maiores sítios arqueológicos de terra preta da Amazônia, associado a antigas ocupações de grandes dimensões urbanas.

Por que isso muda a forma de pensar a Amazônia?

Para pesquisadores, entender que a floresta também carrega marcas do manejo indígena muda a forma de discutir conservação ambiental.

A conclusão não enfraquece a proteção da Amazônia. Pelo contrário.

Ela reforça a importância dos conhecimentos tradicionais acumulados ao longo de milênios e ajuda a explicar por que povos indígenas são frequentemente apontados como protagonistas na conservação da biodiversidade.

O relatório da Academia Brasileira de Ciências destaca que boa parte das chamadas “florestas domesticadas” ainda sustenta cadeias econômicas importantes no Brasil, como a produção de castanha e açaí.

A principal diferença talvez esteja na forma de olhar para a floresta.

Em vez de um território vazio antes da colonização, a Amazônia aparece cada vez mais como uma paisagem profundamente conectada ao conhecimento, à agricultura e às escolhas de povos indígenas que aprenderam a transformar o ambiente sem destruí-lo.


Transparência editorial: Esta reportagem utilizou ferramentas de inteligência artificial como apoio à organização de informações e revisão técnica. A apuração, checagem factual, curadoria das fontes e edição final foram realizadas pela equipe do Portal Meu Amazonas.


LEIA MAIS:

Após seca histórica, governo tenta evitar novo colapso nos rios da Amazônia em 2026

Amazônia pode se transformar em savana e alterar clima no Brasil

El Niño 2026: o que o fenômeno pode causar na Amazônia se confirmado

Indígena Sateré-Mawé faz descoberta inédita sobre cogumelos e amplia conhecimento científico na Amazônia

Cobras da Amazônia: conheça as espécies que governam a floresta

Lendas Amazônicas: histórias que moldam cultura e floresta


Quer receber notícias no seu WhatsApp ?-CLIQUE AQUI

Fale com a Redação: E-mail: [email protected] e WhatsApp: (92) 99148-8431


Siga o Portal Meu Amazonas pelo Facebook – Clique aqui.

Gláucia Chair
Gláucia Chairhttps://portalmeuamazonas.com.br/
Gláucia Chair é jornalista, pesquisadora e professora, com mais de 25 anos de atuação no mercado de comunicação e educação. CEO do Portal Meu Amazonas, também atua como consultora em conteúdo digital e estratégias de mídia. É Master em Jornalismo pelo Instituto Superior de Educação (ISE) e possui especializações em Literatura Moderna e Pós-Moderna, Docência do Ensino Superior e Comunicação, Design e Multimídia. Membro da Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil (AJEB), Gláucia se destaca pela defesa da valorização da produção jornalística e intelectual na Amazônia. Ao longo de sua trajetória, colaborou com veículos de destaque como Portal Amazônia, Jornal e Portal Em Tempo, Portal Radar 10, Revista ECO, Portal Vanguarda do Norte, i9Brasil e Portal Em Pauta.

Matérias Relacionadas

Reviravolta: laudo descarta estupro e aponta asfixia na morte da bebê Helena

Perícia oficial descartou violência sexual, apontou morte por asfixia e levou a Polícia Civil a reclassificar a investigação.

Espaço do Consumidor da CMM oferece atendimento gratuito para orientar e mediar conflitos em Manaus

O Espaço do Consumidor da Câmara Municipal de Manaus oferece atendimento gratuito sem agendamento para orientar consumidores, registrar reclamações e promover conciliações entre clientes e fornecedores.

Prefeitura de Manaus remove veículos abandonados durante operação ‘Sucata’ na zona Norte

A Prefeitura de Manaus retirou dois veículos abandonados no bairro Monte das Oliveiras durante mais uma etapa da operação Sucata. A ação busca melhorar a mobilidade urbana, liberar calçadas e reduzir riscos à saúde pública.

Ventania derruba árvore e causa congestionamento na Avenida Rodrigo Otávio

Árvore caiu após forte ventania, interditou uma faixa da Avenida Rodrigo Otávio e provocou reflexos no trânsito da capital.