O grupo Atem recebeu US$ 206 milhões — mais de R$ 1 bilhão — em diesel transportado por navios sancionados da chamada “frota fantasma” russa. O valor representa 17% de todo o combustível sancionado que entrou no Brasil entre fevereiro de 2022 e junho de 2026, segundo investigação do Poder360 publicada na quarta-feira (5).
A reportagem cruzou dados do Crea (Centro de Pesquisa em Energia e Ar Limpo), da plataforma MarineTraffic, da empresa EOS Risk e de registros da ANP para reconstruir, pela primeira vez, a atuação dessa frota no país.
Manaus lidera proporção de navios sancionados
O porto de Manaus registrou a maior concentração proporcional de embarcações sancionadas entre os 11 portos brasileiros que receberam carga da frota fantasma. Um em cada dez navios que atracaram na capital amazonense fazia parte da rede.
A proporção supera Santos, onde a incidência foi de um a cada 14 navios, e Paranaguá, com um a cada 20. Ao todo, 12 das 68 viagens da frota sancionada ao Brasil tiveram Manaus como destino.
Diesel russo abastece a Região Norte
Praticamente todo o diesel sancionado descarregado em Manaus foi comprado por empresas do grupo Atem. Em nota ao Poder360, a empresa afirmou que suas importações seguem a legislação brasileira e que a compra do combustível russo garante o abastecimento da Região Norte.
O desconto no preço explica o atrativo comercial. Nos primeiros meses da guerra na Ucrânia, o petróleo russo chegou a ser vendido com abatimento de US$ 35 por barril em relação ao Brent. No início de 2026, esse desconto voltou a subir para cerca de US$ 25 por barril.
Frota fantasma opera em zona de opacidade
Identificar essas operações exige cruzar dados sobre sanções, propriedade das embarcações, seguros marítimos e registros portuários, segundo Isaac Levi, do Crea, responsável pela base de dados usada na investigação. Para ele, o desafio era separar os navios sancionados dos demais e reconstruir onde e quando descarregaram carga.
A importação de diesel russo é permitida pela legislação brasileira. O Brasil não aderiu automaticamente às sanções impostas por Estados Unidos, União Europeia e Reino Unido, e a ANP e o Ministério de Minas e Energia defendem que a diversificação de fornecedores contribui para a segurança do abastecimento nacional.
Próximo capítulo da investigação
O Poder360 anunciou que a próxima reportagem da série vai detalhar quais empresas mais se beneficiaram da reconfiguração do mercado de combustíveis provocada pela guerra na Ucrânia.
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