Por: Thaísa Durso
O fim do Desenrola 2.0 não encerra o desafio para quem renegociou dívidas. Com a adesão ao programa prorrogada até 31 de agosto, o próximo passo é evitar que o alívio obtido com a renegociação seja seguido por um novo ciclo de endividamento.
A experiência da primeira fase do Desenrola ajuda a dimensionar o tamanho desse desafio. Encerrado em maio de 2024, o programa renegociou R$ 53,2 bilhões em dívidas para cerca de 15 milhões de pessoas. Ainda assim, os indicadores de inadimplência voltaram a subir nos anos seguintes. O resultado mostra que a renegociação pode aliviar o orçamento, mas não resolve sozinha problemas estruturais de renda, gastos e endividamento.
É nesse cenário que surge uma questão importante para quem aproveitou o Desenrola 2.0: o que fazer depois de renegociar as dívidas?
O programa permitiu que muitos brasileiros trocassem dívidas caras, como as do rotativo do cartão de crédito e do cheque especial, por condições de pagamento mais favoráveis. Para entender as regras, o público-alvo e os impactos esperados do Desenrola 2.0, confira também nosso conteúdo sobre o programa.
A renegociação, porém, não elimina as causas que levaram ao endividamento. Juros elevados mantêm o crédito caro, enquanto orçamentos sem margem para imprevistos podem levar novamente ao uso do cartão, do cheque especial ou de outras modalidades de crédito.
Os números ajudam a dimensionar a pressão sobre o orçamento das famílias. Em julho de 2026, 82% das famílias brasileiras estavam endividadas, segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). No mesmo período, 29,5% da renda mensal estava comprometida com dívidas, de acordo com o Banco Central.
O que fazer depois de renegociar as dívidas
A renegociação deve ser encarada como o início da reorganização financeira, e não como o ponto final. Os primeiros meses após o acordo são importantes para revisar o orçamento, controlar os gastos e reconstruir uma margem para imprevistos.
Uma referência prática é acompanhar quanto da renda está comprometido com o pagamento de dívidas. Manter esse percentual sob controle ajuda a reduzir o risco de que novas despesas levem novamente ao uso excessivo do crédito.
Também é importante revisar despesas recorrentes, evitar novos parcelamentos sem necessidade e identificar quais gastos podem ser reduzidos ou eliminados.
O objetivo é fazer com que a parcela assumida na renegociação caiba de forma sustentável no orçamento. Um acordo que parece administrável no papel pode voltar a pressionar as contas se a família continuar acumulando novas obrigações.
Como transformar a parcela da dívida em reserva financeira
Quando uma dívida cara é quitada ou renegociada, surge uma oportunidade: utilizar parte do dinheiro que antes era destinado aos juros para construir uma reserva financeira.
Por exemplo, uma pessoa que consiga direcionar R$ 300 por mês para uma aplicação conservadora pode começar a formar uma proteção para despesas inesperadas.
Considerando aportes mensais de R$ 300 e rendimento líquido aproximado de 0,9% ao mês, os valores podem evoluir ao longo do tempo. A simulação é apenas educativa e não representa promessa de rentabilidade futura.
| Período | Aporte mensal | Valor aproximado* |
|---|---|---|
| 6 meses | R$ 300 | R$ 1.850 |
| 12 meses | R$ 300 | R$ 3.780 |
| 18 meses | R$ 300 | R$ 5.800 |
| 24 meses | R$ 300 | R$ 8.080 |
*Simulação aproximada considerando aportes no fim de cada mês e rendimento líquido de 0,9% ao mês. Os valores servem apenas para fins educativos e podem variar conforme o investimento, taxas, impostos e condições de mercado.
O principal efeito dessa estratégia não está apenas na rentabilidade. A regularidade dos aportes permite transformar um valor que antes era consumido por uma dívida em uma reserva para o futuro.
Depois de dois anos, por exemplo, os aportes de R$ 300 mensais representariam R$ 7.200 de dinheiro colocado de forma direta na reserva. Com o rendimento considerado na simulação, o montante chegaria a aproximadamente R$ 8 mil.
O risco de voltar a usar crédito
Um dos principais riscos após a renegociação é interpretar a redução da dívida como espaço para assumir novos compromissos.
Quando o orçamento volta a ser pressionado por parcelamentos, empréstimos ou gastos no cartão, o ciclo de endividamento pode reaparecer.
Por isso, antes de assumir uma nova parcela, é importante avaliar se ela realmente cabe no orçamento depois das despesas essenciais e do pagamento das dívidas já renegociadas.
A criação de uma reserva de emergência também reduz a necessidade de recorrer ao crédito diante de despesas inesperadas.
O verdadeiro desafio começa depois do Desenrola 2.0
O Desenrola 2.0 pode ajudar a reorganizar dívidas e aliviar o orçamento no curto prazo. A permanência fora do endividamento, porém, depende das decisões tomadas depois da renegociação.
As melhores condições de pagamento ajudam a resolver o problema imediato. No longo prazo, são o planejamento financeiro, o controle dos gastos e a construção de uma reserva que podem dar maior estabilidade ao orçamento.
Mais do que limpar o nome, o objetivo depois de renegociar uma dívida deve ser recuperar espaço financeiro, criar proteção para imprevistos e reduzir a dependência de crédito caro.
A renegociação abre uma porta. Permanecer fora do ciclo das dívidas depende do que acontece depois dela.
- * Thaísa Durso é educadora financeira da Rico.
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