Editorial analisa incoerências entre o discurso bolsonarista e decisões defendidas entre 2019 e 2022
O slogan “Acorda, Brasil” foi usado à exaustão por apoiadores de Jair Bolsonaro. Acordar, porém, exige memória e relembrar o que o próprio governo Bolsonaro fez quando governou o País entre 2019 e 2022.
1️⃣ Concurso público e desmonte do Estado
O governo Bolsonaro, por meio do então ministro da Economia Paulo Guedes, defendeu a redução do Estado, atacou o funcionalismo e bloqueou concursos públicos. Quem apoiou essa agenda não pode hoje exigir concurso, estabilidade e ampliação do serviço público. O Estado terminou tratado como inimigo. Isso foi escolha política.
2️⃣ Aposentadoria e Reforma da Previdência
A Reforma da Previdência de 2019, proposta e defendida pelo governo Bolsonaro, endureceu regras e reduziu benefícios. Quem apoiou esse governo não pode reclamar agora da aposentadoria menor ou das exigências mais duras. A reforma teve autor, relator e discurso público favorável.
3️⃣ Saúde pública e pandemia
Durante a pandemia, Bolsonaro atacou vacinas, desautorizou especialistas e enfraqueceu a coordenação nacional da saúde. O Sistema Único de Saúde acabou desmoralizado no discurso oficial. Portanto, reclamar hoje da saúde pública é ignorar que ela foi sabotada politicamente durante os anos bolsonaristas. A crise sanitária teve liderança negacionista.
4️⃣ Deportações e política migratória
Bolsonaristas defenderam alinhamento com a política migratória dura dos Estados Unidos, inclusive apoiando ações do Immigration and Customs Enforcement (ICE).
Logo, não faz sentido reclamar agora de deportações, prisões e violência contra brasileiros no exterior. Era exatamente esse modelo que se aplaudia quando a Direita governou o Brasil, no governo Bolsonaro.
5️⃣ Gastos públicos e eleição
O discurso de austeridade ruiu em 2022. O governo Bolsonaro ampliou auxílios, flexibilizou regras fiscais e abriu os cofres para tentar a reeleição, com aval de Paulo Guedes. Portanto, não existe autoridade moral para reclamar de “gastança” seletivamente. O gasto eleitoral foi decisão política consciente.
6️⃣ O ponto que muitos fingem esquecer: meio ambiente e povos indígenas
O governo Bolsonaro desmontou políticas ambientais, enfraqueceu órgãos de fiscalização e atacou sistematicamente a proteção de terras indígenas. Garimpo ilegal avançou, conflitos cresceram e povos indígenas ficaram mais expostos à violência e à omissão do Estado. Quem apoiou esse projeto não pode agora se chocar com crises humanitárias indígenas, nem fingir surpresa quando o Ministério Público Federal precisa acionar a Justiça para garantir direitos básicos. A política de abandono teve comando e discurso.
Conclusão
Isso não é perseguição ideológica. É coerência.
Conclusão, curta e direta:
Quem apoiou Bolsonaro apoiou um pacote inteiro, não versões convenientes. Menos Estado, menos direitos, ataque à ciência, retrocesso ambiental e oportunismo fiscal vieram juntos. Princípio não se ajusta ao incômodo do depois. Ou se assume o conjunto, ou se reconhece o erro. “Acorda, Brasil” só vale com memória e responsabilidade. O resto é negação disfarçada de opinião.
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