Por Fernanda Bassette, da Agência Einstein
Um número crescente de adolescentes e adultos jovens tem trocado a convivência social por um isolamento extremo, permanecendo semanas, meses ou até anos praticamente sem contato presencial com outras pessoas. Conhecido como hikikomori, o fenômeno descrito inicialmente no Japão, desperta atenção de especialistas em saúde mental em diferentes países.
O termo significa, em tradução livre, “isolado em casa” e descreve pessoas que evitam interações presenciais, mantendo contato com o mundo quase exclusivamente por meio de dispositivos eletrônicos.
O tema acabou debatido durante o congresso Encéphale 2026, realizado na França. Segundo o psiquiatra Alfredo Maluf, do Hospital Israelita Albert Einstein, a condição é considerada grave.
“No Japão, chega a atingir de 1% a 2% dos adolescentes. No restante do mundo, ainda não há uma estimativa epidemiológica bem estabelecida”, afirma.
O que caracteriza o hikikomori?
O hikikomori ainda não possui classificação própria na Classificação Internacional de Doenças (CID) nem no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5). Na prática clínica, costuma estar relacionado a condições associadas ao uso problemático da internet ou de jogos eletrônicos.
Os especialistas classificam o quadro em duas formas:
- Primária: ocorre sem associação com outros transtornos mentais.
- Secundária: está ligada a condições como depressão, ansiedade, fobia social, esquizofrenia ou transtornos do neurodesenvolvimento.
De acordo com Maluf, quando o paciente apresenta critérios para outro transtorno psiquiátrico, o hikikomori passa a ser considerado uma manifestação secundária.
Quais são os fatores de risco?
Diversos fatores podem contribuir para o desenvolvimento do isolamento extremo, entre eles:
- baixa autoestima;
- dificuldades de socialização;
- histórico de bullying;
- traumas na infância;
- conflitos familiares;
- características relacionadas ao transtorno do espectro autista (TEA);
- transtorno do déficit de atenção e hiperatividade (TDAH).
Nesses casos, o isolamento pode surgir como uma tentativa de proteção diante de frustrações, cobranças escolares ou pressões sociais.
O papel das telas
Especialistas ainda discutem se o uso excessivo de telas é causa ou consequência do hikikomori.
Segundo Alfredo Maluf, o ambiente digital pode favorecer comportamentos de dependência, aumentando sintomas como ansiedade, irritabilidade e dificuldade para lidar com situações fora do mundo virtual.
Sinais de alerta
Os primeiros sinais costumam surgir de forma gradual, incluindo:
- afastamento de atividades sociais;
- perda de interesse por encontros presenciais;
- alterações no sono;
- irritabilidade;
- aumento expressivo do tempo conectado.
Para os especialistas, a chamada “desadaptação social” é um dos principais indícios de que o quadro pode estar se agravando.
Como é feito o tratamento?
O tratamento deve ser individualizado e considerar o histórico de cada paciente.
A terapia cognitivo-comportamental, uma das principais estratégias utilizadas, pode ser associada ao uso de medicamentos para tratar sintomas relacionados.
Além disso, os especialistas destacam que o apoio da família é fundamental. Estratégias baseadas no acolhimento e na reconstrução gradual dos vínculos sociais costumam apresentar melhores resultados do que abordagens baseadas em pressão ou cobranças.
Resumo:
- O hikikomori é um fenômeno de isolamento extremo, onde indivíduos evitam interações sociais, principalmente em decorrência do uso excessivo de tecnologia.
- Existem duas formas de hikikomori: primária, sem associação a outros transtornos mentais, e secundária, relacionada a condições como depressão e ansiedade.
- Fatores de risco incluem baixa autoestima, histórico de bullying e conflitos familiares, que podem levar ao isolamento como uma forma de proteção.
- O tratamento deve ser individualizado e pode incluir terapia cognitivo-comportamental, além do apoio familiar para reconstruir vínculos sociais.
- Sinais de alerta incluem afastamento social, alterações de sono e aumento do tempo conectado, indicando a necessidade de intervenção.
Fonte: Agência Einstein.
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