Biblioteca em Tefé reúne 28 mil obras científicas sobre a Amazônia

Acervo do Instituto Mamirauá preserva pesquisas sobre biodiversidade, recursos naturais e populações amazônicas, além de obras raras do século XIX

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Manaus (AM) – Em Tefé, no Médio Solimões, uma biblioteca reúne mais de 28 mil títulos dedicados à ciência e ao conhecimento sobre a Amazônia. A Biblioteca Henry Walter Bates, mantida pelo Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá (IDSM), concentra livros, periódicos, teses, dissertações, relatórios e outras publicações relacionadas à biodiversidade, conservação, manejo de recursos naturais e às populações que vivem na região.

Mais do que um espaço de consulta, o acervo funciona como parte da infraestrutura científica construída no interior do Amazonas. A biblioteca acompanha a trajetória de pesquisas desenvolvidas pelo Instituto Mamirauá e preserva documentos que ajudam a compreender as transformações ambientais e sociais do Médio Solimões.

O IDSM é uma organização social vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e tem sede em Tefé. O instituto atua em pesquisa científica, conservação da biodiversidade, manejo de recursos naturais, desenvolvimento social e gestão de áreas protegidas na Amazônia.

Uma biblioteca formada junto com a pesquisa na Amazônia

A história da Biblioteca Henry Walter Bates está diretamente relacionada à própria formação do Projeto Mamirauá.

O pesquisador José Márcio Ayres chegou à região na década de 1980 para estudar o uacari-branco, primata que vive nas florestas alagáveis do Médio Solimões. A pesquisa contribuiu para o desenvolvimento de estudos sobre a região e para a criação da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá.

Com a estruturação do Projeto Mamirauá, parte do material bibliográfico reunido por Ayres passou a integrar o acervo que daria origem à biblioteca. Pesquisadores também contribuíram posteriormente com doações de livros, relatórios e publicações científicas.

A biblioteca recebeu o nome de Henry Walter Bates, naturalista britânico que realizou pesquisas na Amazônia no século XIX e registrou parte de suas experiências na obra The Naturalist on the River Amazons, publicada originalmente em 1863.

A escolha do nome estabelece uma conexão entre a história das primeiras expedições científicas estrangeiras pela região e a produção contemporânea de conhecimento realizada no interior do Amazonas.

O que há nas 28 mil obras

O acervo reúne diferentes tipos de publicações relacionadas à Amazônia. Entre elas estão trabalhos sobre:

  • biodiversidade e ecologia;
  • conservação de espécies;
  • manejo de recursos naturais;
  • florestas alagáveis;
  • populações tradicionais;
  • dinâmica social e econômica;
  • áreas protegidas;
  • pesca e manejo do pirarucu;
  • mudanças ambientais;
  • saúde e conservação;
  • patrimônio cultural e arqueologia.

A abrangência acompanha as próprias áreas de pesquisa do Instituto Mamirauá, que incluem biodiversidade, manejo sustentável, organização social e governança socioambiental, arqueologia e patrimônio cultural, geotecnologias e medicina da conservação.

Isso faz com que o acervo tenha uma característica particular: ele não reúne apenas literatura sobre a Amazônia produzida em grandes centros acadêmicos. Também preserva a produção científica realizada dentro da própria região, incluindo trabalhos desenvolvidos por pesquisadores que passaram pelo Instituto Mamirauá ao longo de décadas.

Memória científica do Médio Solimões

A importância da biblioteca não está apenas na quantidade de títulos.

Um estudo publicado em 2023 pela revista Múltiplos Olhares em Ciência da Informação, de autoria da bibliotecária Graciete Rolim, descreve a Biblioteca Henry Walter Bates como espaço de pesquisa e memória institucional. O trabalho registra a formação do acervo, sua relação com a produção científica do Instituto Mamirauá e o impacto do espaço para moradores da região.

A biblioteca também preserva coleções associadas a pesquisadores que tiveram papel importante na trajetória do Instituto, entre elas as de José Márcio Ayres, Deborah de Magalhães Lima e Michael Goulding.

A coleção de Michael Goulding, por exemplo, recebeu mais de 1,4 mil obras do acervo pessoal do pesquisador. Entre elas estavam dezenas de livros do século XIX, incluindo primeiras edições de obras clássicas sobre a Amazônia.

Obras raras contam a história da ciência na Amazônia

Entre os itens mais valiosos do acervo estão exemplares publicados no século XIX.

A biblioteca conserva a primeira edição de A Narrative of Travels on the Amazon and Rio Negro, de Alfred Russel Wallace, publicada em 1853.

Também está no acervo a primeira edição de The Naturalist on the River Amazons, de Henry Walter Bates, publicada em 1863. A própria Biblioteca Henry Walter Bates destaca os dois livros entre suas obras raras.

Esses livros têm importância que vai além do valor bibliográfico. Eles fazem parte da história da documentação científica da Amazônia no século XIX, período em que naturalistas europeus percorreram a região e produziram descrições sobre fauna, flora, rios, paisagens e populações.

Hoje, essas obras convivem no mesmo espaço com pesquisas científicas contemporâneas produzidas no Médio Solimões.

Ciência produzida dentro da floresta

A existência da biblioteca em Tefé também ajuda a compreender uma característica pouco conhecida da ciência amazônica: parte importante da pesquisa sobre a região é realizada dentro da própria Amazônia, e não apenas em universidades e centros de pesquisa localizados nas capitais.

O Instituto Mamirauá é uma das instituições que sustentam essa produção científica no interior do estado. Segundo o MCTI, o instituto é o único centro de excelência da pasta com atuação no interior do Amazonas e desenvolve pesquisas relacionadas à biodiversidade, recursos naturais, áreas protegidas e populações tradicionais.

Pesquisas desenvolvidas pelo instituto também alimentam sistemas de monitoramento e políticas de conservação. Um exemplo é o projeto Providence, que utiliza inteligência artificial para processar dados de som e imagem e monitorar a biodiversidade na Reserva Mamirauá.

Nesse contexto, a biblioteca funciona como uma espécie de memória acumulada da pesquisa amazônica: guarda parte do conhecimento que permite aos pesquisadores comparar resultados, recuperar informações históricas e construir novos estudos.

Acesso também é parte da missão

O acervo não é destinado exclusivamente aos pesquisadores do Instituto Mamirauá.

A biblioteca é aberta ao público e oferece espaço para leitura e estudos, além de acesso ao acervo para consulta. O próprio Instituto destaca sua importância para estudantes de Tefé e para a inclusão social por meio do acesso à informação científica.

A experiência da biblioteca também inclui atividades de divulgação científica. Em ações da Semana Nacional de Ciência e Tecnologia, por exemplo, o Instituto Mamirauá abre o espaço para que estudantes e moradores conheçam o acervo e tenham contato com as pesquisas desenvolvidas na instituição.

Essa dimensão é especialmente relevante em uma região distante dos grandes centros urbanos de produção científica. O acesso local à literatura especializada reduz a distância entre quem produz conhecimento e quem vive no território estudado.

De Henry Walter Bates a José Márcio Ayres

O nome da biblioteca também estabelece uma espécie de ponte entre dois momentos da história da ciência amazônica.

Henry Walter Bates passou anos pesquisando a Amazônia no século XIX e deixou uma das obras clássicas da literatura naturalista sobre a região.

Mais de um século depois, José Márcio Ayres desenvolveu pesquisas no Médio Solimões que ajudaram a transformar a maneira como a conservação da biodiversidade era pensada na região. O trabalho com o uacari-branco esteve na origem da criação da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá e, posteriormente, do próprio Instituto Mamirauá.

Entre esses dois momentos, mudou a forma de produzir ciência. A pesquisa amazônica passou de expedições individuais e grandes coleções naturalistas para projetos multidisciplinares, monitoramento de longo prazo, participação comunitária e tecnologias como inteligência artificial.

A biblioteca preserva parte dessa trajetória em seus livros, periódicos e documentos.

Um acervo científico no interior do Amazonas

A Biblioteca Henry Walter Bates está localizada na sede do Instituto Mamirauá, em Tefé, município que funciona como um dos principais centros urbanos e científicos do Médio Solimões.

Seu acervo reúne documentos de diferentes períodos e áreas do conhecimento, permitindo que estudantes, pesquisadores e moradores tenham acesso a informações produzidas sobre a região e, principalmente, dentro dela.

Em uma Amazônia onde grandes distâncias ainda dificultam o acesso a universidades, laboratórios e centros especializados, manter uma biblioteca científica desse porte no interior do estado representa também uma forma de descentralizar o acesso ao conhecimento.

A coleção de 28 mil títulos, portanto, não representa apenas uma quantidade de livros. Ela registra décadas de pesquisas, preserva parte da memória científica da Amazônia e mantém disponível, em Tefé, um patrimônio bibliográfico relacionado a um dos territórios mais estudados e estratégicos do planeta.

SAIBA MAIS

Onde fica a Biblioteca Henry Walter Bates?
A biblioteca está na sede do Instituto Mamirauá, na Estrada do Bexiga, nº 2.584, bairro Fonte Boa, em Tefé (AM).

O acesso é gratuito?
Sim. O espaço é aberto ao público para consulta e atividades de leitura e estudo.

Qual é o horário de funcionamento?
De segunda a quinta-feira, das 8h às 12h e das 13h às 18h. Às sextas-feiras, das 8h às 12h e das 13h às 17h.

Quais são as obras raras mais importantes?
Entre os destaques estão as primeiras edições de A Narrative of Travels on the Amazon and Rio Negro, de Alfred Russel Wallace, de 1853, e The Naturalist on the River Amazons, de Henry Walter Bates, de 1863.

Quem é Henry Walter Bates?
Foi um naturalista britânico que realizou pesquisas na Amazônia no século XIX e dá nome à biblioteca do Instituto Mamirauá.

Quem foi José Márcio Ayres?
Biólogo, pesquisador e primatólogo, Ayres desenvolveu estudos sobre o uacari-branco na região e foi um dos principais responsáveis pela criação da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá e pela origem do projeto que posteriormente deu lugar ao Instituto Mamirauá.

É possível consultar o acervo pela internet?
O Instituto Mamirauá mantém uma página específica para consulta ao acervo da Biblioteca Henry Walter Bates.


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Gláucia Chair
Gláucia Chairhttps://portalmeuamazonas.com.br/
Gláucia Chair é jornalista, pesquisadora e professora, com mais de 25 anos de atuação no mercado de comunicação e educação. CEO do Portal Meu Amazonas, também atua como consultora em conteúdo digital e estratégias de mídia. É Master em Jornalismo pelo Instituto Superior de Educação (ISE) e possui especializações em Literatura Moderna e Pós-Moderna, Docência do Ensino Superior e Comunicação, Design e Multimídia. Membro da Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil (AJEB), Gláucia se destaca pela defesa da valorização da produção jornalística e intelectual na Amazônia. Ao longo de sua trajetória, colaborou com veículos de destaque como Portal Amazônia, Jornal e Portal Em Tempo, Portal Radar 10, Revista ECO, Portal Vanguarda do Norte, i9Brasil e Portal Em Pauta.

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