Povo Noke Koî mantém tradição do kambô no Acre

Na aldeia Sumaúma, em Cruzeiro do Sul, o povo Noke Koî preserva o kambô como prática ancestral ligada à espiritualidade, à floresta e ao cuidado tradicional da saúde

Data:

Compartilhe esse post:


Cruzeiro do Sul (AC) – O povo indígena Noke Koî, da aldeia Sumaúma, em Cruzeiro do Sul, no Acre, mantém viva uma das práticas medicinais ancestrais mais conhecidas da Amazônia: o kambô. Transmitido entre gerações, o conhecimento integra rituais de fortalecimento físico e espiritual e ocupa papel central na relação do grupo com a floresta.

A prática utiliza a secreção de um anfíbio amazônico conhecido como sapo kambô (Phyllomedusa bicolor). Os indígenas aplicam a substância em pequenos pontos da pele, geralmente após leves queimaduras superficiais. Entre os Noke Koî, o ritual está associado à disposição física, limpeza espiritual e equilíbrio emocional.

O que é o kambô

sapo-de-cor-verde-brilhante_do-kambo_acre_foto_Cleiton-Lopes_secom
sapo-de-cor-verde-brilhante_do-kambo_acre_foto_Cleiton-Lopes_secom

Para o povo Noke Koî, o kambô não funciona apenas como um tratamento tradicional. A prática também representa uma conexão espiritual com a natureza e com os conhecimentos herdados dos ancestrais.

O cacique Mõcha Noke Koî afirma que o saber faz parte da vida comunitária desde a infância.

“Para nós, o kambô é uma medicina sagrada ensinada pelo grande espírito. Ele traz força, coragem, alegria e limpa o pensamento e a espiritualidade. Desde as crianças pequenas, nosso povo utiliza o kambô como proteção espiritual e fortalecimento do corpo”, relata.

Segundo o líder indígena, preservar o kambô também significa proteger o território onde o ritual existe.

“Não é só o kambô. Preservar o kambô é preservar a Amazônia, preservar as plantas, a vida e o planeta. O kambô vive perto das nossas casas porque nosso povo protege e respeita a natureza”, afirma Mõcha.

O que a ciência já estudou sobre o kambô

Cacique-Mocha-Noke-Koi-segura-sapo-demonstrando-respeito_acre.
Cacique-Mocha-Noke-Koi-segura-sapo-demonstrando-respeito_acre.

Pesquisadores investigam compostos presentes na secreção do sapo kambô por possível interesse farmacológico. Estudos identificaram peptídeos bioativos, como dermorfina e deltorfina, substâncias analisadas em pesquisas laboratoriais por potencial ação analgésica.

Contudo, não existe consenso científico que comprove amplamente usos terapêuticos do kambô para doenças, e especialistas alertam para riscos quando a prática ocorre sem acompanhamento adequado ou fora do contexto tradicional indígena.

Esse ponto aparece também no alerta do próprio cacique sobre o uso indiscriminado.

“Hoje muita gente no mundo usa o kambô, mas sem preparo e sem conhecer a tradição. A medicina não é brincadeira. A gente pode brincar com a medicina, mas a medicina não brinca com a gente”, avisa.

Retirada ocorre sem ferir o animal


FRANCISCA-ARARA_titular-da-secretaria-de-povos-indigenas-do-Acre_foto_Cleiton-Lopes.j

FRANCISCA-ARARA_titular-da-secretaria-de-povos-indigenas-do-Acre_foto_Cleiton-Lopes.j

Os Noke Koî afirmam que extraem a secreção sem machucar o sapo, prática considerada essencial para manter o equilíbrio entre o ritual e a preservação ambiental.

A secretária extraordinária dos Povos Indígenas do Acre, Francisca Arara, relata que o kambô integra conhecimentos tradicionais transmitidos antes da chegada da medicina farmacêutica às aldeias.

“Minha mãe conta que meu avô utilizava o kambô para tirar o cansaço e fortalecer os homens antes da caça. Era uma forma de limpar as energias ruins e fortalecer o corpo e o espírito”, afirma.

Ela também destaca que o animal possui valor simbólico e ambiental para os povos indígenas.

“Ninguém mata esse sapo. Nosso povo protege, porque ele faz parte da nossa ciência ancestral. Além da medicina, ele também avisa sobre a mudança do tempo, quando chegam o inverno e o verão”, explica.

O que está em jogo além do ritual

O Acre mantém mais de 84% da vegetação nativa preservada, segundo dados do governo estadual. Nesse cenário, práticas tradicionais como o kambô permanecem ligadas à conservação da floresta e à transmissão de saberes indígenas entre gerações.

Mais do que um ritual, o kambô representa um patrimônio cultural para povos amazônicos que associam saúde, território e espiritualidade como partes inseparáveis do mesmo modo de vida.


A reportagem original foi publicada pela Agência de Notícias do Acre, com texto de Andreia Nobre e fotos de Cleiton Lopes/Secom. O Portal Meu Amazonas realizou edição jornalística, contextualização e adequação editorial.

Leia mais:

Amazônia pode se transformar em savana e alterar clima no Brasil

Amazônia troca alimentos tradicionais por ultraprocessados e vê crescer casos de diabetes e anemia, alerta estudo

El Niño 2026: o que o fenômeno pode causar na Amazônia se confirmado


Quer receber notícias no seu WhatsApp ?-CLIQUE AQUI

Fale com a Redação: E-mail: [email protected] e WhatsApp: (92) 99148-8431


Portal Meu Amazonas
Portal Meu Amazonashttps://portalmeuamazonas.com.br
O Portal Meu Amazonas é um veículo digital de jornalismo sediado em Manaus, dedicado à cobertura do Amazonas e da Amazônia. Produz notícias, reportagens, análises e conteúdo de serviço sobre política, economia, cidades, meio ambiente, cultura, segurança, saúde e temas que impactam a população da região.

Matérias Relacionadas

Mendonça tira sigilo de investigação da PF que cita Moraes e Vorcaro

Relatório da Polícia Federal aponta contatos entre Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro.

Mais de 10 adolescentes desaparecidos são localizados no mês de agosto em Manaus

Ao todo, 14 casos foram registrados pela unidade; três desaparecimentos ainda são investigados.

Motorista de ônibus é morto após suposta discussão sobre política em Manaus

Nando Vieira Pontes, de 44 anos, foi atacado por um colega de trabalho durante uma discussão na sede da Eucatur, na zona Norte da capital.

Defensoria no AM cobra governo por atraso na ajuda de custo de tratamento fora do Estado

DPAM questiona valor parado desde 2017, restrição a acompanhantes idosos e indeferimentos no Tratamento Fora de Domicílio; SES-AM tem até sexta (4) para responder.