Cruzeiro do Sul (AC) – O povo indígena Noke Koî, da aldeia Sumaúma, em Cruzeiro do Sul, no Acre, mantém viva uma das práticas medicinais ancestrais mais conhecidas da Amazônia: o kambô. Transmitido entre gerações, o conhecimento integra rituais de fortalecimento físico e espiritual e ocupa papel central na relação do grupo com a floresta.
A prática utiliza a secreção de um anfíbio amazônico conhecido como sapo kambô (Phyllomedusa bicolor). Os indígenas aplicam a substância em pequenos pontos da pele, geralmente após leves queimaduras superficiais. Entre os Noke Koî, o ritual está associado à disposição física, limpeza espiritual e equilíbrio emocional.
O que é o kambô

Para o povo Noke Koî, o kambô não funciona apenas como um tratamento tradicional. A prática também representa uma conexão espiritual com a natureza e com os conhecimentos herdados dos ancestrais.
O cacique Mõcha Noke Koî afirma que o saber faz parte da vida comunitária desde a infância.
“Para nós, o kambô é uma medicina sagrada ensinada pelo grande espírito. Ele traz força, coragem, alegria e limpa o pensamento e a espiritualidade. Desde as crianças pequenas, nosso povo utiliza o kambô como proteção espiritual e fortalecimento do corpo”, relata.
Segundo o líder indígena, preservar o kambô também significa proteger o território onde o ritual existe.
“Não é só o kambô. Preservar o kambô é preservar a Amazônia, preservar as plantas, a vida e o planeta. O kambô vive perto das nossas casas porque nosso povo protege e respeita a natureza”, afirma Mõcha.
O que a ciência já estudou sobre o kambô

Pesquisadores investigam compostos presentes na secreção do sapo kambô por possível interesse farmacológico. Estudos identificaram peptídeos bioativos, como dermorfina e deltorfina, substâncias analisadas em pesquisas laboratoriais por potencial ação analgésica.
Contudo, não existe consenso científico que comprove amplamente usos terapêuticos do kambô para doenças, e especialistas alertam para riscos quando a prática ocorre sem acompanhamento adequado ou fora do contexto tradicional indígena.
Esse ponto aparece também no alerta do próprio cacique sobre o uso indiscriminado.
“Hoje muita gente no mundo usa o kambô, mas sem preparo e sem conhecer a tradição. A medicina não é brincadeira. A gente pode brincar com a medicina, mas a medicina não brinca com a gente”, avisa.
Retirada ocorre sem ferir o animal

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Os Noke Koî afirmam que extraem a secreção sem machucar o sapo, prática considerada essencial para manter o equilíbrio entre o ritual e a preservação ambiental.
A secretária extraordinária dos Povos Indígenas do Acre, Francisca Arara, relata que o kambô integra conhecimentos tradicionais transmitidos antes da chegada da medicina farmacêutica às aldeias.
“Minha mãe conta que meu avô utilizava o kambô para tirar o cansaço e fortalecer os homens antes da caça. Era uma forma de limpar as energias ruins e fortalecer o corpo e o espírito”, afirma.
Ela também destaca que o animal possui valor simbólico e ambiental para os povos indígenas.
“Ninguém mata esse sapo. Nosso povo protege, porque ele faz parte da nossa ciência ancestral. Além da medicina, ele também avisa sobre a mudança do tempo, quando chegam o inverno e o verão”, explica.
O que está em jogo além do ritual
O Acre mantém mais de 84% da vegetação nativa preservada, segundo dados do governo estadual. Nesse cenário, práticas tradicionais como o kambô permanecem ligadas à conservação da floresta e à transmissão de saberes indígenas entre gerações.
Mais do que um ritual, o kambô representa um patrimônio cultural para povos amazônicos que associam saúde, território e espiritualidade como partes inseparáveis do mesmo modo de vida.
A reportagem original foi publicada pela Agência de Notícias do Acre, com texto de Andreia Nobre e fotos de Cleiton Lopes/Secom. O Portal Meu Amazonas realizou edição jornalística, contextualização e adequação editorial.




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