Ela sabe o que está dizendo? Ciência explica a fala das araras

Com alta capacidade de aprendizagem, memória e associação, araras podem relacionar palavras a pessoas, objetos e situações — mas isso significa que elas entendem o que estão dizendo?

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Araras conseguem aprender sons, associá-los a pessoas, objetos e situações e, em alguns casos, utilizar vocalizações de maneira funcional. Mas isso significa que elas compreendem as palavras como os seres humanos? A ciência indica que a resposta exige cuidado.

Quando uma arara parece “responder” ao tutor ou repete uma palavra em determinado contexto, o comportamento pode resultar de aprendizagem vocal, memória, associação e interação social. Isso é diferente de demonstrar que a ave domina uma linguagem humana ou possui consciência da própria identidade.

Araras conseguem associar palavras a objetos e situações?

Araras, papagaios, periquitos e cacatuas pertencem à ordem dos Psittaciformes, grupo que reúne aves conhecidas pela capacidade de aprendizagem vocal e por comportamentos cognitivos complexos.

Um dos casos mais estudados é o do papagaio-cinzento-africano Alex, pesquisado pela cientista Irene Pepperberg. Experimentos realizados com Alex indicaram que o animal conseguia utilizar vocalizações de maneira funcional e associar determinados rótulos a objetos, características e ações. Pesquisas também identificaram capacidades relacionadas a categorias e quantidades.

Esses resultados, porém, não significam que Alex ou outras aves utilizassem linguagem humana da mesma forma que uma pessoa. O que os estudos demonstram é uma capacidade sofisticada de aprendizagem e comunicação por meio de vocalizações.

Por isso, quando uma arara parece “corrigir” uma pessoa ou utiliza uma determinada palavra diante de um objeto, é mais seguro falar em associação aprendida e uso contextual do som do que afirmar que a ave compreende a linguagem humana como um ser humano.

Como a arara imita a voz humana?

As aves não produzem sons da mesma maneira que os seres humanos. Em vez de pregas vocais, elas utilizam a siringe, estrutura localizada na região inferior da traqueia e especializada na produção de sons.

Nos psitacídeos, o controle do sistema vocal permite produzir uma grande variedade de sons. A aprendizagem vocal também permite que essas aves reproduzam padrões sonoros que escutam no ambiente, incluindo sons produzidos por seres humanos.

Por isso, uma arara pode reproduzir palavras, ritmo e características da voz de uma pessoa sem possuir uma “voz humana”. O aparelho vocal continua sendo o de uma ave.

Por que algumas araras parecem conversar com pessoas?

A resposta está também na vida social desses animais.

Araras e outros psitacídeos utilizam vocalizações para manter contato com integrantes do grupo. A comunicação vocal ajuda a estabelecer e manter relações sociais.

Em um ambiente doméstico, a pessoa que convive diariamente com a ave passa a fazer parte do ambiente social dela. Com a repetição, a arara pode aprender que determinados sons produzem determinadas respostas.

Uma vocalização pode, por exemplo, chamar a atenção do tutor, provocar uma interação ou estar associada a uma determinada situação.

Esse mecanismo ajuda a explicar por que algumas aves aprendem a dizer “oi” quando alguém chega, chamar determinada pessoa ou repetir sons que costumam provocar uma reação.

Estudos recentes com araras também mostram que a aprendizagem vocal pode produzir diferenças entre populações e entre aves em diferentes estágios de desenvolvimento, reforçando a importância da experiência e do ambiente na formação do repertório vocal.

Inteligência não significa domesticação

A capacidade de aprendizagem das araras não transforma essas aves em animais domésticos.

Araras são animais silvestres, sociais, longevos e com necessidades comportamentais específicas. A manutenção em cativeiro exige espaço adequado, alimentação, interação, estímulos e cuidados veterinários compatíveis com a espécie.

O próprio Ibama orienta que, antes de adquirir um animal silvestre, o responsável deve conhecer as necessidades da espécie, incluindo espaço, alimentação, comportamento, vocalização, nível de agressividade e expectativa de vida. O órgão também alerta para a necessidade de comprovação da origem legal do animal.

Ambientes inadequados ou pouco estimulantes podem favorecer alterações comportamentais. Arrancamento de penas, por exemplo, pode ter diferentes causas e exige avaliação veterinária para identificar o problema.

Uma arara pode saber quem é?

Essa é uma pergunta diferente de saber se a ave consegue associar uma palavra a uma pessoa.

Até o momento, não é possível afirmar, com base apenas na capacidade de imitar palavras ou responder a determinados sons, que uma arara tenha consciência de sua identidade nos mesmos termos usados para descrever a autoconsciência humana.

Também é preciso separar três capacidades:

Imitação: reproduzir um som ouvido anteriormente.

Associação: relacionar determinado som a uma pessoa, objeto, ação ou situação.

Compreensão linguística: atribuir significado abstrato às palavras e utilizá-las dentro de um sistema linguístico.

As pesquisas com psitacídeos fornecem evidências relevantes para as duas primeiras capacidades e indicam formas sofisticadas de processamento cognitivo. Já afirmar que uma arara possui compreensão da linguagem equivalente à humana seria ir além das evidências disponíveis.

De onde veio a arara?

A origem do animal também importa.

No Brasil, animais silvestres não devem ser retirados da natureza para serem mantidos como animais de estimação. A aquisição legal exige atenção à procedência e à documentação.

O Ibama orienta que o comprador verifique se o fornecedor possui autorização do órgão ambiental, confira a identificação individual do animal e exija o certificado de origem quando a aquisição ocorrer de criadouros ou estabelecimentos autorizados.

A manutenção ilegal de animais silvestres pode contribuir para o tráfico de fauna e para a retirada de indivíduos da natureza.

A fala é apenas uma parte da inteligência da arara

A capacidade de reproduzir palavras é provavelmente o aspecto mais impressionante para quem convive com essas aves, mas ela representa apenas uma parte de sua biologia.

Araras possuem sofisticadas capacidades de aprendizagem, memória e interação social. A ciência mostra que algumas aves podem aprender vocalizações e utilizá-las em contextos específicos, mas ainda existem limites importantes para afirmar o que esses animais “pensam” quando reproduzem uma palavra.

No fim, talvez a pergunta mais interessante não seja apenas se a arara sabe o que está dizendo.

É entender o que ela aprendeu sobre aquele som, sobre a situação em que o utiliza e sobre as pessoas com quem convive.

Saiba mais

Pesquisas sobre o papagaio-cinzento-africano Alex ajudaram a demonstrar capacidades complexas de aprendizagem e comunicação em psitacídeos.O Ibama também disponibiliza orientações sobre aquisição legal e cuidados necessários para a manutenção de animais silvestres em cativeiro.


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Victor Lino
Victor Lino
Victor Lino integra a equipe do Portal Meu Amazonas. Atua na produção e apuração de conteúdos jornalísticos, com atenção aos acontecimentos de Manaus e do Amazonas. Em sua trajetória profissional, desenvolve experiência na rotina de redação, pesquisa de informações, acompanhamento de fontes e construção de notícias para o ambiente digital.

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