Dívida dos EUA chega a US$ 40 trilhões: isso significa risco de calote?

Dívida dos EUA chega a US$ 40 trilhões, mas isso significa risco de calote? Entenda o problema fiscal americano.

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A dívida pública dos Estados Unidos chegou à marca de US$ 40 trilhões, um número que chama atenção pelo tamanho e pela velocidade de crescimento. Mas o valor absoluto, sozinho, diz pouco sobre a capacidade do governo americano de pagar suas obrigações.

O que realmente preocupa economistas e investidores é outra combinação: dívida elevada em relação ao tamanho da economia, déficits persistentes e um custo de juros que cresce mais rapidamente que o orçamento.

O Congressional Budget Office (CBO), órgão técnico do Congresso americano, projeta que a dívida federal detida pelo público chegará a 101% do PIB em 2026 e a 120% em 2036. Se nada mudar, alcançaria 175% do PIB duas décadas depois.

Isso coloca a situação fiscal americana entre os principais problemas econômicos de longo prazo do país. Não significa, porém, que os Estados Unidos estejam perto de dar calote.

O problema está mais no déficit do que no número de US$ 40 trilhões

Os Estados Unidos convivem com déficits fiscais há décadas. O último superávit do governo federal ocorreu em 2001.

O problema ganhou outra dimensão porque os gastos continuam superiores às receitas mesmo fora de períodos de crise.

Para 2026, o CBO estima um déficit federal equivalente a 5,8% do PIB. O chamado déficit primário, que exclui os juros da dívida, ficaria em 2,6% do PIB.

Essa diferença é importante. Ela mostra que o governo não está apenas pagando juros sobre uma dívida acumulada no passado. O orçamento continua gerando novo endividamento antes mesmo de considerar o custo financeiro da dívida existente.

É essa combinação que torna a trajetória difícil de sustentar indefinidamente.

Juros já pesam sobre o orçamento

O custo do endividamento também mudou de patamar.

O CBO estima que os pagamentos líquidos de juros representarão 3,3% do PIB em 2026, acima da média de 2,1% observada nos 50 anos anteriores. Em 2036, a projeção chega a 4,6% do PIB.

Em valores absolutos, os juros líquidos devem passar de aproximadamente US$ 1 trilhão em 2026 para US$ 2,1 trilhões em 2036, segundo o órgão.

Isso reduz o espaço disponível para outras despesas públicas.

Há uma consequência importante: quanto maior o estoque da dívida e quanto maior a taxa média paga pelos títulos, maior tende a ser a parcela do orçamento destinada ao serviço da dívida.

Não é necessário haver um calote para que isso se transforme em um problema. O próprio custo financeiro pode limitar a capacidade do governo de investir, cortar impostos ou responder a uma nova recessão.

Por que os EUA não são iguais a uma família endividada

É comum comparar a dívida americana com a dívida de uma empresa ou de uma família. A analogia ajuda a entender o conceito de juros, mas falha em um ponto fundamental.

O governo dos Estados Unidos emite dívida em dólares, a principal moeda de reserva internacional. Além disso, o mercado de títulos do Tesouro americano é o maior e um dos mais líquidos do mundo.

Isso não torna a dívida irrelevante. Mas significa que o risco enfrentado pelos Estados Unidos é diferente do de um país que precisa tomar empréstimos em moeda estrangeira.

Por isso, uma dívida acima de 100% do PIB não significa automaticamente insolvência.

O risco mais discutido pelos economistas é o de uma deterioração gradual das contas públicas: juros cada vez maiores, necessidade permanente de refinanciamento e menor margem para políticas econômicas em momentos de crise.

E os juros dos títulos de 30 anos?

O aumento dos rendimentos dos títulos americanos de longo prazo merece atenção.

Mas é um erro atribuir toda a alta à desconfiança dos investidores em relação à capacidade de pagamento do governo.

A taxa de um Treasury de 30 anos incorpora expectativas para inflação, juros futuros, crescimento econômico, oferta de títulos e o chamado prêmio de prazo, além das preocupações fiscais.

Portanto, juros longos elevados são compatíveis com preocupação fiscal, mas não constituem, sozinhos, uma prova de que o mercado esteja esperando um calote americano.

Essa distinção é importante.

O mercado pode exigir uma remuneração maior para carregar títulos de longo prazo porque espera inflação mais alta ou porque considera que o prêmio necessário para manter esses papéis aumentou. Isso é diferente de acreditar que os Estados Unidos deixarão de pagar sua dívida.

Ouro ganha espaço nas reservas dos bancos centrais

Existe, entretanto, uma mudança real acontecendo no sistema financeiro internacional: os bancos centrais vêm aumentando suas reservas de ouro.

Segundo o World Gold Council, os bancos centrais acumularam, em média, cerca de 1.000 toneladas de ouro por ano nos últimos quatro anos, aproximadamente o dobro da média da década anterior.

Na pesquisa de 2026 da entidade, 89% dos gestores de reservas consultados esperavam aumento das reservas globais de ouro nos 12 meses seguintes. Além disso, 45% disseram esperar aumentar as reservas de ouro de suas próprias instituições.

O movimento tem várias explicações: diversificação, proteção contra inflação, incerteza geopolítica e busca por ativos que não dependam diretamente da política econômica de um único país.

Mas existe uma diferença importante em relação ao que algumas análises de mercado sugerem.

O ouro ainda não substituiu o dólar como principal ativo das reservas internacionais.

Dados compilados pelo World Gold Council indicam que, no primeiro trimestre de 2026, o ouro representava cerca de 29% das reservas globais alocadas, enquanto o dólar continuava com a maior participação.

O que ocorreu foi que o ouro passou a superar os títulos do governo americano em determinado cálculo de valor de reserva. Isso é diferente de dizer que o ouro se tornou a principal moeda de reserva.

Isso significa que o dólar está perdendo seu papel?

Há sinais de diversificação, mas ainda não de uma substituição do dólar.

Na pesquisa de 2026 do World Gold Council, 74% dos bancos centrais consultados esperavam que a participação do dólar nas reservas globais diminuísse nos cinco anos seguintes. Ao mesmo tempo, o dólar continuava descrito como a principal moeda de reserva mundial.

É uma mudança que merece acompanhamento, sobretudo porque uma menor demanda estrangeira por títulos americanos poderia, em tese, exigir remuneração maior para financiar o governo.

Mas isso não significa que o sistema monetário internacional esteja prestes a abandonar o dólar.

A escala, a liquidez e a profundidade dos mercados americanos ainda fazem do dólar e dos Treasuries peças centrais das reservas internacionais.

E o Bitcoin?

É justamente nesse ponto que algumas narrativas sobre a dívida americana dão um salto que os dados não permitem.

A tese de que o Bitcoin poderia funcionar como proteção contra perda de confiança em moedas e governos existe e tem defensores no mercado. Mas não há evidência de que os bancos centrais estejam substituindo Treasuries por Bitcoin na mesma escala em que vêm aumentando suas reservas de ouro.

O Bitcoin é um ativo muito mais volátil e não exerce hoje a mesma função institucional do ouro nas reservas oficiais.

Portanto, colocar ouro e Bitcoin como se fossem dois estágios da mesma migração das reservas globais é uma interpretação de investimento, não uma conclusão estabelecida pelos dados.

Existe risco de calote?

No curto prazo, os dados disponíveis não apontam para um cenário de calote provocado simplesmente pelo tamanho da dívida.

O problema americano é mais complexo e, de certa forma, menos dramático: a trajetória fiscal é difícil de sustentar no longo prazo se o país não conseguir reduzir déficits ou aumentar sua capacidade de gerar receitas em relação às despesas.

O CBO projeta crescimento contínuo da dívida em relação ao PIB e aumento expressivo dos juros.

Isso pode provocar consequências importantes muito antes de qualquer eventual calote: juros mais altos, menor espaço fiscal, maior disputa por recursos no orçamento e maior vulnerabilidade a choques econômicos.

Em outras palavras, não é preciso esperar uma crise da dívida para que a dívida se torne um problema econômico.

O que realmente merece atenção

A dívida de US$ 40 trilhões é um número impressionante, mas não é o melhor indicador isolado para avaliar o risco americano.

Os indicadores que merecem acompanhamento são:

  • dívida em relação ao PIB;
  • déficit fiscal anual;
  • custo dos juros;
  • crescimento da economia;
  • inflação e taxas de juros;
  • demanda internacional por Treasuries;
  • participação do dólar nas reservas globais.

Hoje, esses indicadores contam uma história de deterioração fiscal estrutural, mas não de colapso iminente.

O desafio dos Estados Unidos é conseguir interromper uma trajetória em que a dívida cresce mais rapidamente que a economia por um período prolongado.

E esse é um problema grande o suficiente para não precisar de alarmismo para ser levado a sério.

SAIBA MAIS

  • O CBO projeta dívida federal detida pelo público de 101% do PIB em 2026 e 120% em 2036.
  • Os juros líquidos devem representar 3,3% do PIB em 2026 e 4,6% em 2036.
  • Bancos centrais vêm aumentando as compras de ouro e mantêm o metal como ativo estratégico de reserva.
  • O dólar continua sendo a principal moeda de reserva internacional, apesar do movimento de diversificação.

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Marcelo Torres
Marcelo Torreshttps://portalmeuamazonas.com.br
Marcelo Torres é jornalista, com atuação voltada à cobertura de cotidiano e temas de interesse público. Com olhar atento aos fatos e compromisso com a apuração responsável, prioriza informação clara, contextualizada e de relevância para o leitor.

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