Produção de cupuaçu no Amazonas é 9 vezes menor que no Pará

Primeiro levantamento do IBGE sobre o cultivo do fruto registra 3.426 toneladas no estado em 2025. Na coleta extrativista, porém, o Amazonas lidera o país.

Data:

Compartilhe esse post:

Manaus (AM) – A produção de cupuaçu no Amazonas foi de 3.426 toneladas em 2025, mais de nove vezes menor que a do Pará, que colheu 32.491 toneladas. Os dados são da Produção Agrícola Municipal (PAM), do IBGE, divulgada em setembro de 2026. Foi a primeira vez que a pesquisa mediu o cultivo do fruto.

Na floresta, a posição se inverte. Na coleta extrativista, o Amazonas ficou em primeiro lugar no país, com 99 toneladas, segundo a Pesquisa da Produção da Extração Vegetal e da Silvicultura (PEVS), também do IBGE.

Pará concentra 85% do cupuaçu cultivado no Norte

O IBGE contabilizou cerca de 38,3 mil toneladas de cupuaçu cultivado na Região Norte em 2025. Sozinho, o Pará respondeu por 84,9% desse volume.

O Amazonas ficou em segundo lugar. Depois vêm Rondônia, com 2.218 toneladas, Tocantins, com 121, e Roraima, com 15.

Acre e Amapá aparecem com produção zero. Isso não quer dizer que não exista cupuaçu nesses estados. Significa apenas que a amostra da pesquisa municipal não registrou colheita ali.

Como 2025 é o primeiro ano da série, ainda não dá para saber se a produção cresceu ou caiu. O cupuaçu entrou na PAM junto com outras nove culturas: baru, buriti, cajá, juçara, macaúba, pupunha, tucum, andiroba e murumuru.

Iranduba e Codajás lideram a coleta na floresta

Na coleta em áreas nativas, o Amazonas produziu 99 toneladas de cupuaçu, avaliadas em R$ 437 mil. Iranduba, na Região Metropolitana de Manaus, respondeu por 50 toneladas.

Codajás, no interior do estado, colheu 32 toneladas. Alvarães, com seis, e Tefé, com quatro, completam a lista dos maiores produtores extrativistas.

As duas pesquisas medem coisas diferentes e não devem ser somadas. A PAM registra o fruto plantado em lavouras. A PEVS registra o fruto coletado em áreas de mata nativa.

Vassoura-de-bruxa derrubou pomares em Presidente Figueiredo

Presidente Figueiredo, a 107 km de Manaus, é o município mais associado ao fruto no estado. A 34ª Festa do Cupuaçu aconteceu ali de 30 de julho a 2 de agosto de 2026.

Segundo a Secretaria Municipal de Produção Rural, 98 agricultores cultivam 55 hectares de cupuaçu na cidade. Eles colheram cerca de 165 toneladas na safra 2025-2026.

Mesmo com a área menor, a festa movimenta quem vive do fruto. Em entrevista à Rede Amazônica, a doceira Carmem Ribeiro contou que a produção de balas, licores e doces quase triplica nessa época.

“Muito trabalho, mas a gente produz e vende bastante. Todas as pessoas querem as balas nesse período”, disse.

Na mesma reportagem, o agricultor Withan Silva Laborda lembrou que o cupuaçu já foi o principal produto da agricultura local. Segundo o secretário de Produção Rural, Jean Barros, a prefeitura aposta em variedades resistentes, em parceria com a Embrapa.

A maior ameaça às lavouras é a vassoura-de-bruxa, doença causada pelo fungo Moniliophthora perniciosa. É o mesmo fungo que arrasou as plantações de cacau na Bahia a partir de 1989. Cupuaçu e cacau são parentes: as duas plantas pertencem ao gênero Theobroma.

Clones da Embrapa chegam a 14 toneladas por hectare

A Embrapa Amazônia Oriental, em Belém, lançou em 2022 o Kit Cupuaçu 5.0, com cinco clones resistentes à doença: BRS Careca, BRS Fartura, BRS Duquesa, BRS Curinga e BRS Golias. O pesquisador Rafael Moysés Alves avaliou 16 clones durante dez anos antes de escolher esses cinco.

Em teste, os clones produziram até 14 toneladas de fruto por hectare. Eles também aumentam a safra de quatro para seis meses, porque combinam plantas que amadurecem cedo, no meio e no fim da temporada.

Em Presidente Figueiredo, os números da prefeitura dão cerca de três toneladas por hectare. A comparação serve apenas como referência: os dados da Embrapa vêm de experimentos no Pará, e os do município vêm de lavouras comerciais.

Em janeiro de 2025, a Embrapa anunciou outro passo. Os pesquisadores identificaram genes do cupuaçu ligados à resistência à vassoura-de-bruxa, o que deve acelerar a criação de novas variedades.

Da polpa à manteiga: o que o fruto movimenta

O cupuaçu é o maior fruto do gênero Theobroma e pode passar de 1 kg. A polpa ácida e perfumada vira suco, sorvete, creme, bombom e licor.

Da semente se extrai a manteiga de cupuaçu, usada pela indústria de cosméticos. No mesmo texto da Embrapa, Ekkehard Gutjahr, sócio da empresa Amazon Oil, explicou por que o produto é valorizado.

“Ela possui alto poder de absorção de água, aproximadamente 240% superior à da lanolina, atuando como um substituto vegetal”, afirmou.

Segundo Gutjahr, a manteiga de cupuaçu foi uma das primeiras manteigas amazônicas a chegar ao mercado internacional. Ele também defendeu fortalecer o mercado de polpa, para garantir o fornecimento de sementes à indústria.

Em 2022, a sorveteria Cairu, de Belém, informou à Embrapa que vendia cerca de três toneladas por mês só de produtos de cupuaçu. A semente também dá origem ao cupulate, um produto parecido com o chocolate, cujo processo a Embrapa patenteou em 1990.

Disputa com empresa japonesa tornou o cupuaçu fruta nacional

Entre 2001 e 2002, a japonesa Asahi Foods registrou “cupuaçu” como marca no Japão, na União Europeia e nos Estados Unidos. A empresa também pediu patentes para extrair a gordura da semente e fabricar cupulate.

O caso veio a público em 2003, quando uma venda da ONG Amazonlink para a Alemanha foi barrada por causa do registro. O governo brasileiro contestou a marca, e o registro japonês acabou cancelado.

Em resposta, o Congresso aprovou a Lei 11.675, de 2008, que declarou o cupuaçu fruta nacional.

O que falta para a produção de cupuaçu no Amazonas crescer

Os novos dados deixam algumas perguntas em aberto. A principal é saber quanto dos pomares do estado já usa clones resistentes. Outra é quanto da semente é aproveitada pela indústria local.

A próxima edição da PAM, prevista para o segundo semestre de 2027, vai mostrar pela primeira vez se a produção cresceu ou caiu.

Saiba mais

PAM e PEVS: qual a diferença?
A Produção Agrícola Municipal mede o que é plantado e colhido em lavouras. A Pesquisa da Produção da Extração Vegetal e da Silvicultura mede o que é coletado em áreas nativas. As duas são feitas pelo IBGE todo ano, a partir de informações levantadas nos municípios.


PESQUISE MAIS:

Identidade botânica do cupuaçu

  • Nome científico: Theobroma grandiflorum. É da família Malvaceae e do mesmo gênero do cacau (Theobroma cacao).
  • Origem: sul e sudeste da Amazônia oriental (Pará e Maranhão), de onde se espalhou por toda a bacia amazônica.
  • O fruto: é o maior do gênero Theobroma. Pesa em média de 1 a 2 kg, tem casca dura e lenhosa e polpa branco-creme ácida e muito aromática. As sementes são ricas em gordura.
  • Colheita: o fruto não é tirado do pé. Ele é recolhido do chão depois que cai sozinho, já maduro. No Amazonas, a safra vai mais ou menos de janeiro a abril.

Produção

Em setembro de 2026, o IBGE divulgou a Produção Agrícola Municipal (PAM) 2025. É a primeira vez que o cupuaçu aparece como cultura permanente na pesquisa, ao lado de baru, buriti, cajá, juçara, macaúba, pupunha, tucum, andiroba e murumuru.

Cultivo (PAM 2025), região Norte, cerca de 38,3 mil toneladas:

EstadoToneladas
Pará32.491 (84,9%)
Amazonas3.426
Rondônia2.218
Tocantins121
Roraima15
Acre e Amapá0 registrado

Extrativismo (PEVS 2025): aqui o Amazonas ficou em 1º lugar no país. Foram 99 toneladas, no valor de R$ 437 mil. Os maiores produtores foram Iranduba (50 t), Codajás (32 t), Alvarães (6 t) e Tefé (4 t).

Presidente Figueiredo e a vassoura-de-bruxa

  • O município é símbolo do cupuaçu no Amazonas. Ali, 98 agricultores cultivam 55 hectares e colheram cerca de 165 toneladas na safra 2025-2026, o equivalente a 63 toneladas de polpa (Portal Amazônia, 12 de agosto de 2026).
  • A vassoura-de-bruxa é a principal doença do cupuaçu. É causada pelo fungo Moniliophthora perniciosa, o mesmo que devastou o cacau na Bahia, e destruiu boa parte dos pomares da região.
  • A 34ª Festa do Cupuaçu foi de 30 de julho a 2 de agosto de 2026. Nessa época, a produção de doces, balas e licores das doceiras locais chega a triplicar.

Ciência e tecnologia

  • Kit Cupuaçu 5.0 (Embrapa Amazônia Oriental): reúne os clones BRS Careca, BRS Fartura, BRS Duquesa, BRS Curinga e BRS Golias.
    • Resistem bem à vassoura-de-bruxa.
    • Produzem até 14 t de fruto por hectare, contra uma média de cerca de 2,5 t/ha no Pará.
    • Esticam a colheita de 4 para 6 meses.
    • O pesquisador Rafael Moysés Alves avaliou 16 clones durante 10 anos para chegar a esses cinco.
    • Precisam ser plantados em mistura, porque a planta depende de polinização cruzada.
  • Genética: em janeiro de 2025, a Embrapa anunciou ter identificado genes do cupuaçu ligados à resistência à vassoura-de-bruxa. Isso deve acelerar o melhoramento genético.
  • Fonte local: a Embrapa Amazônia Ocidental (Manaus, tel. (92) 3303-7800) é a fonte para falar dos clones indicados ao Amazonas. O Idam tem uma cartilha sobre cultivo na agricultura familiar.

Usos e mercado

  • Polpa: sucos, sorvetes, cremes, bombons, doces e licores.
  • Semente:
    • Manteiga de cupuaçu, muito usada em cosméticos por hidratar e reter água.
    • Cupulate, um “chocolate” feito da amêndoa do cupuaçu. A Embrapa desenvolveu o processo nos anos 1980 e o patenteou em 1990.
  • Bioeconomia: os resíduos (casca e semente) estão sendo pesquisados para virar ração, adubo, biocombustível e farinha.

Biopirataria: um caso histórico

  • Em 2001 e 2002, a japonesa Asahi Foods registrou “cupuaçu” como marca no Japão, na União Europeia e nos Estados Unidos. Também patenteou métodos de extrair a gordura e de fazer cupulate.
  • Em 2003, o caso veio a público. Uma exportação da ONG Amazonlink para a Alemanha foi barrada por causa da marca.
  • O governo brasileiro e entidades contestaram os registros. O empresário Mack Nagasawa, dono da marca, assinou um compromisso com o governo do Pará: deixou de se opor à anulação. O registro foi cancelado no Japão em 2004.
  • Lei 11.675/2008: declarou o cupuaçu “fruta nacional”, como reação ao caso.

LEIA MAIS:

Prefeitura define programação da Festa do Cupuaçu 2026

32ª Festa do Cupuaçu em Presidente Figueiredo: Shows de Xande Avião, Pablo, Joelma e muito mais!

Açaí e guaraná entram no ranking das 100 melhores frutas do mundo


Quer receber notícias no seu WhatsApp ?-CLIQUE AQUI

Fale com a Redação: E-mail: [email protected] e WhatsApp: (92) 99148-8431

Luiz Marcelo
Luiz Marcelohttps://portalmeuamazonas.com.br
Luiz Marcelo já escolheu seu lugar no mundo: na fronteira entre o jornalismo e o universo digital. Curioso por natureza, navega pela internet com olhar editorial — sempre em busca de pautas de interesse à população amazônida. Cada texto que escreve é uma chance de entender melhor a Amazônia e as histórias que ela guarda.

Matérias Relacionadas

Quem trabalha no dia da eleição tem direito a folga ou pagamento em dobro?

Dia da eleição é considerado feriado nacional, mas atividades podem funcionar; trabalhador deve ter garantido o tempo necessário para votar.

Empresa do Amazonas lança plataforma para montar colinha e simular votação

Plataforma permite organizar números de candidatos, consultar informações e simular a sequência de votação antes das eleições de 4 de outubro.

Incêndio devastador no Cacau Pirêra provoca alerta severo para qualidade do ar

Um grande incêndio atinge uma área de mata no Cacau Pirêra, no Iranduba.

Câmera registra homem furtando calçados em shopping de Manaus; veja vídeo

Suspeito entrou na loja se passando por cliente e levou diversos calçados; prejuízo estimado ultrapassa R$ 7 mil.