MANAUS (AM) – A Polícia Federal deflagrou nesta quinta-feira (27) a Operação Correntes do Capital, em Manicoré, no interior do Amazonas, para investigar um grupo suspeito de envolvimento em desmatamento ilegal em larga escala, ocupação irregular de terras públicas e exploração de trabalhadores em condições análogas à escravidão.
A operação ocorre cerca de dois anos depois de uma fiscalização que resultou no resgate de 50 trabalhadores em condições degradantes na mesma região. Segundo a PF, aquela ação deu origem à investigação que agora chegou à fase de cumprimento de mandados judiciais.
A Justiça Federal autorizou mandados de busca e apreensão e medidas de bloqueio de bens e valores dos investigados. A PF estima em mais de R$ 179 milhões o dano ambiental relacionado às atividades investigadas.
O que aconteceu em 2024
A fiscalização que desencadeou a investigação ocorreu entre 24 de abril e 2 de maio de 2024.
Uma força-tarefa coordenada pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), com participação do Ministério Público do Trabalho (MPT), Polícia Federal e Ibama, encontrou 50 trabalhadores em condições degradantes em uma área de desmatamento.
Segundo o MTE, os trabalhadores haviam sido recrutados em municípios de Rondônia e do sul do Amazonas para realizar corte raso de vegetação em uma área destinada à Central das Associações Agroextrativistas do Rio Manicoré (CAARIM), por meio de uma Concessão de Direito Real de Uso (CDRU).
Os alojamentos eram improvisados, cobertos com lonas plásticas e sem instalações sanitárias adequadas. A água consumida pelos trabalhadores era retirada de um igarapé.
Um dos trabalhadores foi encontrado ferido após ser atingido por um galho de árvore e precisou ser levado para atendimento médico em Manicoré.
Na época, os órgãos de fiscalização determinaram a retirada dos trabalhadores, o encerramento das atividades e o pagamento das verbas trabalhistas devidas.
Atividade teria continuado após o resgate
O caso, porém, não terminou com a fiscalização de 2024.
Um relatório do Conselho Nacional de Justiça registra que, em 18 de junho de 2024, a Rede Transdisciplinar da Amazônia levou à equipe da Justiça Itinerante uma denúncia de que o trabalho análogo à escravidão teria continuado na região.
Segundo o relato registrado pelo CNJ, o maquinário encontrado durante a operação de abril e maio não teria sido retirado e a atividade ilegal teria continuado com quatro tratores e cerca de 70 trabalhadores. O documento também registra preocupação com um possível conflito com moradores da região.
A informação foi posteriormente repercutida em reportagens jornalísticas. Em agosto de 2024, a Folha de S.Paulo informou que a exploração havia sido retomada e que cerca de 70 pessoas estariam acampadas na floresta.
Não é possível afirmar, com base nas fontes consultadas, quais providências específicas foram tomadas pelas autoridades diante dessas denúncias posteriores nem se elas fazem parte direta da investigação que resultou na Operação Correntes do Capital.
Investigação avançou até operação em 2026
Segundo a Polícia Federal, as apurações iniciadas após o resgate dos trabalhadores identificaram suspeitas de atuação de um grupo envolvido em desmatamento ilegal, ocupação de terras públicas e exploração de mão de obra.
A área investigada estaria localizada em terras públicas, segundo a corporação. O dano ambiental estimado supera R$ 179 milhões.
Nesta quinta-feira, a Justiça Federal determinou buscas e apreensões e bloqueios de bens e valores.
A PF investiga possíveis crimes de:
- organização criminosa;
- redução de trabalhadores à condição análoga à de escravo;
- desmatamento ilegal;
- invasão de terras públicas;
- falsidade ideológica;
- corrupção.
Os investigados poderão responder de acordo com a participação individual que for comprovada nas investigações.
Dois anos depois, permanecem perguntas
A deflagração da operação em 2026 mostra que a investigação iniciada após o resgate de 50 trabalhadores avançou até uma etapa judicial.
Mas os registros públicos também mostram que já havia novas denúncias sobre a continuidade das atividades na região poucas semanas depois da fiscalização de 2024.
Por isso, uma questão permanece em aberto: quais medidas acabaram adotadas entre o resgate dos trabalhadores, em 2024, e a operação deflagrada agora para impedir a continuidade do desmatamento e da exploração na área?
A Polícia Federal não detalhou, na nota divulgada sobre a Operação Correntes do Capital, todas as etapas percorridas pela investigação nesse intervalo. A corporação informou apenas que as apurações tiveram início após a fiscalização que resultou no resgate dos trabalhadores.
SAIBA MAIS
Abril/maio de 2024: 50 trabalhadores resgatados em condições degradantes em uma área de desmatamento em Manicoré.
Junho de 2024: relatório do CNJ registrou denúncia de que a atividade ilegal teria continuado no local, com quatro tratores e cerca de 70 trabalhadores.
Agosto de 2024: reportagem da Folha relatou a retomada da exploração na região.
Agosto de 2026: a PF deflagrou a Operação Correntes do Capital e cumpriu medidas judiciais contra os investigados.
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