Trabalho infantil no Norte tem maior taxa do país, diz IBGE

Região soma 249 mil crianças e adolescentes de 5 a 17 anos nessa condição em 2025 e não acompanha a queda nacional, que levou o Brasil ao menor patamar da série histórica

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Manaus (AM) – O trabalho infantil no Norte atingiu 249 mil crianças e adolescentes de 5 a 17 anos em 2025, o equivalente a 6,3% da população nessa faixa etária. A taxa é a mais alta entre as cinco regiões do país e supera a média nacional, de 4%. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou os dados na sexta-feira, 16 de outubro, com base na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua.

O resultado coloca a região na contramão do país. Enquanto o Brasil reduziu o trabalho infantil em 9,2% em um ano, o Norte ficou praticamente estável. Eram 248 mil crianças e adolescentes nessa situação em 2024, com taxa de 6,2%.

Brasil cai ao menor nível, mas Norte não acompanha

No país, o contingente recuou de 1,65 milhão em 2024 para 1,499 milhão em 2025. É o menor número desde 2016, quando o IBGE iniciou a série. O Norte responde hoje por cerca de um em cada seis casos registrados no Brasil.

A liderança do Norte se refere à proporção, não ao total absoluto. O Sudeste concentra o maior número de crianças e adolescentes em trabalho infantil, com 481 mil, mas tem a menor taxa do país, de 3,3%. Isso ocorre porque a população jovem do Sudeste é muito maior.

Depois do Norte, aparecem o Sul, com 4,4%, o Centro-Oeste, com 4%, e o Nordeste, com 3,8%. Todas as regiões tiveram queda na comparação com 2022. No Norte, a redução foi de 1,2 ponto percentual, de 7,5% para 6,3%.

Trabalho infantil no Norte cresce entre as crianças mais novas

O dado mais preocupante aparece na faixa de 5 a 13 anos, idade em que qualquer trabalho é proibido. No Norte, o número de crianças nessa situação subiu de 63 mil em 2024 para 69 mil em 2025.

A taxa regional nessa faixa chegou a 2,6%, mais que o dobro da média nacional, de 1,1%. O Nordeste vem a seguir, com 1,4%, seguido por Sul (1,1%), Centro-Oeste (0,8%) e Sudeste (0,5%). Juntas, as duas regiões concentram mais de 60% das crianças de 5 a 13 anos em trabalho infantil no Brasil.

Entre os adolescentes de 14 e 15 anos, o Norte também lidera, com 10,1%. O contingente passou de 62 mil para 64 mil. O Centro-Oeste aparece em segundo, com 7,1%.

A única queda regional ocorreu entre os jovens de 16 e 17 anos. Esse grupo recuou de 123 mil para 116 mil e ainda representa a maior parcela do total. A taxa nessa idade chegou a 17,6%, atrás apenas do Sul, com 17,8%.

Redução desde 2016 é mais lenta que a do país

Em uma década, o Norte reduziu o trabalho infantil de 334 mil para 249 mil casos, queda de 25,4%. No mesmo período, o Brasil recuou 28,6%. A PNAD Contínua não coletou dados sobre o tema em 2020 e 2021 por causa da pandemia.

A trajetória recente mostra perda de fôlego. A região tinha 296 mil crianças e adolescentes nessa condição em 2022, número que caiu para 282 mil em 2023 e para 248 mil em 2024. Em 2025, a curva parou de descer.

Bolsa Família puxou a queda nacional

O IBGE atribui a maior parte da redução do país aos domicílios beneficiários do Bolsa Família. Nessas casas, o número de crianças e adolescentes em trabalho infantil caiu de 717 mil para 573 mil em um ano. São 144 mil a menos, o que respondeu por mais de 95% da queda nacional.

Entre 2016 e 2025, o recuo nos lares atendidos pelo programa chegou a 41%. Nos domicílios não beneficiários, o contingente passou de 1,129 milhão para 926 mil. O instituto ressalta que a pesquisa não investiga os motivos individuais que levam uma criança a deixar o trabalho.

O levantamento também estimou que 525 mil crianças e adolescentes atuavam, em 2025, nas chamadas piores formas de trabalho infantil, atividades listadas como perigosas à saúde e à segurança. Os meninos somavam 65,4% do total.

Distâncias e comunidades ribeirinhas dificultam a fiscalização no Amazonas

A divulgação regional do IBGE não detalha os números por estado. No Amazonas, porém, os órgãos de proteção já reconhecem obstáculos próprios da geografia local.

Em seminário estadual realizado no Fórum Trabalhista de Manaus, instituições apontaram as grandes distâncias, as comunidades ribeirinhas e a dificuldade de fiscalização como desafios centrais. O encontro também discutiu a subnotificação e a melhoria dos canais de denúncia no estado.

O auditor-fiscal Emerson Costa de Sá, da Superintendência Regional do Trabalho no Amazonas, defendeu no evento que o enfrentamento depende de atuação em rede e do envolvimento da sociedade civil.

O que a lei considera trabalho infantil

A legislação brasileira proíbe qualquer trabalho antes dos 14 anos. Entre 14 e 15 anos, o adolescente só pode atuar como aprendiz. Aos 16 e 17 anos, o trabalho é permitido, mas não em atividades noturnas, perigosas ou insalubres.

Para o IBGE, afazeres domésticos e tarefas de cuidado não remuneradas na própria casa não entram na conta. A denúncia de trabalho infantil pode ser feita ao Disque 100, de forma anônima, ao Conselho Tutelar do município ou ao Ministério Público do Trabalho.

Os microdados da PNAD permitem recortes por estado. Em 2026, a Secretaria de Inspeção do Trabalho já usou a base de 2024 para um diagnóstico por unidade da federação. Um levantamento equivalente com os dados de 2025 vai mostrar se o Amazonas segue o ritmo da região.


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Marcelo Torres
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Marcelo Torres é jornalista, com atuação voltada à cobertura de cotidiano e temas de interesse público. Com olhar atento aos fatos e compromisso com a apuração responsável, prioriza informação clara, contextualizada e de relevância para o leitor.

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