Terrorismo não é crime organizado

Em artigo de opinião, Juscelino Taketomi argumenta que equiparar facções criminosas a organizações terroristas representa um erro conceitual e pode abrir espaço para interferências externas

Data:

Compartilhe esse post:

Por Juscelino Taketomi

Há um equívoco conceitual que tem sido explorado politicamente, com consequências graves para o Estado de Direito e para a soberania nacional: a equiparação entre crime organizado e terrorismo. Terrorismo não é crime organizado.

Que fique clara uma coisa: PCC e Comando Vermelho são organizações criminosas. Operam por lucro, territorialidade e intimidação. Não possuem agenda política declarada, não reivindicam a derrubada do Estado nem almejam substituir a ordem constitucional por outra. São, em qualquer conceituação jurídica séria, grupos criminosos de alta periculosidade. Não são atores terroristas.

Terrorismo, nos termos do direito internacional e da Lei nº 13.260/2016, pressupõe motivação política ou ideológica, o uso do terror como instrumento de coerção de governos ou populações e a intenção de subverter a ordem democrática. Confundir os dois fenômenos não é apenas um erro técnico, mas uma manobra com destinatário certo: Washington.

A recente viagem de Flávio Bolsonaro à Casa Branca para tratar da classificação dessas facções como organizações terroristas revela um padrão preocupante. Para obter prestígio doméstico, oferece-se ao governo estrangeiro uma narrativa que abre a porta para ingerência direta nos assuntos de segurança pública brasileiros.

A classificação de grupos nacionais como terroristas segundo critérios externos — ou, pior, segundo interesses de uma facção política americana — é o primeiro passo para justificar cooperação de inteligência, presença de agências estrangeiras em solo nacional e pressão sobre o sistema judiciário interno.

Vassalagem apresentada como virtude é, na gramática da soberania, subordinação. O Brasil que se posiciona abaixo de outro país para legitimar sua política interna de segurança abre mão do atributo mais elementar de um Estado independente: o monopólio da definição de seus próprios inimigos.

A história latino-americana está repleta de episódios em que a subordinação ao poder imperial foi embalada em discursos de alinhamento moral e combate ao crime. A Operação Condor foi vendida como necessidade de segurança continental. Ditaduras foram sustentadas como baluartes contra a subversão. O resultado foi sempre o mesmo: soberania corroída, instituições capturadas e cidadãos à mercê de acordos celebrados longe de qualquer controle democrático.

O que está em jogo não é apenas um erro de classificação jurídica. É a legitimidade de quem define, em última instância, o que ameaça o Brasil. Quando um ator político nacional viaja a Washington para conseguir essa classificação como troféu eleitoral, a segurança pública deixa de ser política de Estado e vira moeda de troca em uma negociação cujos termos o cidadão brasileiro jamais aprovou e sequer conhece.

O combate ao crime organizado é urgente e legítimo. Exige inteligência, cooperação internacional dentro de marcos jurídicos transparentes, fortalecimento das instituições policiais e judiciais e, acima de tudo, clareza conceitual.

Nomear o problema com precisão é o primeiro ato de uma política séria. Chamá-lo de terrorismo quando não o é serve apenas a quem precisa de um inimigo de proporções épicas para justificar medidas excepcionais e dependências estratégicas.

A soberania não se mede apenas em fronteiras geográficas. Mede-se, sobretudo, na capacidade de um povo de nomear seus problemas, definir suas prioridades e construir suas respostas sem precisar de chancela estrangeira. Quem troca essa capacidade por uma fotografia ao lado de um líder de outra nação não está defendendo o Brasil. Está, vergonhosamente, negociando o país.

Juscelino Taketomi
Juscelino Taketomi

( * ) Juscelino Taketomi é jornalista, colaborador do Portal Meu Amazonas e assessor especial na Assembleia Legislativa do Amazonas

Leia mais artigos de Juscelino Taketomi:

República dos Carapanãs

Juscelino Taketomi
Juscelino Taketomihttps://portalmeuamazonas.com.br/
Jornalista, há 28 anos servidor da Assembleia Legislativa do Amazonas (Aleam)

Matérias Relacionadas

VÍDEO: Menino de 6 anos morre após ser atingido por faca durante castigo do pai no AM

Criança foi atingida por uma faca que estava dentro de uma mochila usada pelo pai, segundo versão apresentada à Polícia Civil.

Honda e UEA lançam pós-graduação inédita em Ergonomia Aplicada à Indústria 4.0 no AM

Parceria entre Moto Honda e UEA cria formação inédita no Amazonas para preparar profissionais diante dos novos desafios da Indústria 4.0.

VÍDEO: Cabo PM é preso suspeito de entregar empresário para ‘tribunal do crime’ em Manaus

Operação Prova Viva cumpriu mandados de prisão e busca contra investigados por sequestro ocorrido na zona Norte da capital.

Reviravolta: laudo descarta estupro e aponta asfixia na morte da bebê Helena

Perícia oficial descartou violência sexual, apontou morte por asfixia e levou a Polícia Civil a reclassificar a investigação.