Em artigo, Juscelino Taketomi critica o impasse histórico da BR-319, questiona a ausência de alternativas econômicas para o Amazonas e ironiza o debate ambiental sobre o futuro do estado
Por Juscelino Taketomi
Lula vem aí. Dias 26 e 27 de maio, o presidente da República desembarca no Amazonas para mais um capítulo da maior obra de ficção da engenharia brasileira: a BR-319. Que saco, meu Deus!
A essa altura, a BR-319 já devia concorrer ao Oscar de roteiro adaptado. Não é estrada. É patrimônio imaterial da enrolação nacional. Uma rodovia que existe, não existe, reaparece, afunda, ressuscita, ganha licença, perde licença, entra na Justiça, sai da Justiça e volta para o pântano burocrático de onde nunca deveria ter saído.
A BR-319 virou uma entidade metafísica. Tem amazonense que já fala da rodovia como quem fala de disco voador:
“Meu primo viu um trecho asfaltado perto do Careiro”, diz um idiota. “Não acredito”, diz um imbecil. “Pois eu juro”, insiste o idiota.
Agora Lula chega prometendo destravar a estrada. Excelente. Maravilhoso. Fantástico. Mas não combinou com o Ibama, com o Ministério Público, com as ONGs internacionais, com os ambientalistas suecos, com os fiscais de satélite, com os especialistas em rã arborícola e, principalmente, com os carapanãs, verdadeiros donos da soberania amazônica, como já disse o grande filósofo e profeta Lúcio Carril.
Enquanto isso, o Amazonas segue isolado. E não é força de expressão. O sujeito sai de Manaus para São Paulo em menos tempo do que consegue atravessar certos trechos da BR-319 no inverno amazônico. Dependendo da chuva, o caminhão afunda até o diferencial, e o motorista já começa a cogitar abrir uma pousada no meio do atoleiro.
Mas o debate sobre a estrada continua tratado em Brasília como uma espécie de dilema moral da humanidade:
“Salvar a floresta ou integrar o Amazonas?”. Como se o povo amazonense fosse um detalhe inconveniente da paisagem.
O curioso é que o mesmo país que fala em proteger a Amazônia parece não saber muito bem o que fazer com os amazonenses. Querem a floresta intocada, os rios intocados, as árvores intocadas, os minérios intocados, os índios intocados e, de preferência, o amazonense também intocado, o caboclo parado, imóvel, contemplativo e sustentável, igual a planta ornamental de conferência climática.
O problema é que gente come. E o relógio está correndo. A Zona Franca de Manaus tem prazo de validade até 2073. Parece longe. Não é. Em termos econômicos, 2073 é depois de amanhã, com um pouco de umidade. E aí vem a pergunta que ninguém em Brasília gosta de responder: qual é o plano B do Amazonas?
Ora, vejam só. Discurso ecológico não paga salário. Painel climático não gera emprego. Seminário internacional não põe comida na mesa do caboclo. Se a BR-319 continuar eternamente atolada na burocracia ideológica brasileira, o Amazonas terá de decidir entre dois destinos igualmente grotescos.
No primeiro cenário, viramos oficialmente um gigantesco santuário ecológico internacional administrado por estrangeiros emocionados com a biodiversidade, enquanto os amazonenses sobrevivem vendendo biojoia, polpa de cupuaçu gourmet e fotografia de boto para turista europeu.
No segundo cenário, algum iluminado concluirá que, sem alternativa econômica séria, o povo acabará entrando mata adentro atrás do que der dinheiro: madeira, ouro, minério, cassiterita, níquel, terras raras ou qualquer outra riqueza que o subsolo esconda debaixo das árvores defendidas em seminários climatizados de Genebra. É que a natureza tem uma regra brutal: ninguém preserva de barriga vazia.
E os indígenas? Ah, os indígenas, os indígenas de Marquês de Pombal. Eles continuarão sendo disputados como troféus morais da República. Ora tratados como símbolo sagrado da floresta, ora usados como peça publicitária de governos, ONGs, mineradoras, geopolíticos estrangeiros e oportunistas profissionais da causa amazônica. Os indígenas continuarão sendo badalados até no New York Times.
Todo mundo fala em nome deles. Poucos escutam o que eles realmente querem. No fundo, a tragédia amazônica talvez seja essa: o Amazonas virou assunto mundial sem jamais deixar de ser problema local.
Lula vem ao Amazonas tentando destravar a BR-319. Tomara que consiga. Porque, se não conseguir, o Estado continuará isolado entre o discurso ambiental absoluto e a ausência quase absoluta de alternativas econômicas concretas.
E aí sobrará apenas a República dos Carapanãs: uma imensa floresta preservada, admirada pelo planeta inteiro, atravessada por conferências globais, monitorada por satélites estrangeiros e habitada por um povo proibido de se desenvolver. Mas ecologicamente correto. Até o último mosquito.

( * ) Juscelino Taketomi é jornalista, colaborador do Portal Meu Amazonas e assessor especial na Assembleia Legislativa do Amazonas
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