O El Niño chegou. Discreto por enquanto, mas já visível nos números: chuvas castigam o Rio Grande do Sul, e cientistas apontam setembro como o mês em que o fenômeno começa a mostrar sua verdadeira força — com efeitos que preocupam diretamente o Amazonas.
Sul sente primeiro, Norte sofre depois
A conta já apareceu no Rio Grande do Sul. Chuvas na última semana de julho atingiram mais de 84 mil pessoas em 171 municípios gaúchos, segundo o Instituto ClimaInfo. Não é coincidência: o Sul do país costuma ser o primeiro a sentir o El Niño, ainda na primavera.
O padrão se repete a cada novo episódio do fenômeno. Enquanto o Sul se afoga em chuva, Norte e Nordeste esperam o oposto: uma seca que tende a se estender além do previsto.
O que os modelos climáticos estão dizendo
O fenômeno é conhecido: as águas do Pacífico Equatorial esquentam além do normal e desorganizam o clima em boa parte do planeta. Neste ano, porém, o aquecimento surpreende pela velocidade. A anomalia de temperatura já bateu 1,8°C — ritmo acima da média histórica para esta época.
Os modelos apontam para algo maior ainda por vir. O europeu ECMWF projeta um pico acima de 3°C entre setembro e dezembro. Em metade das simulações, a marca chega perto de 3,3°C. O topo da curva ainda não foi atingido, e ninguém sabe ao certo o tamanho do estrago — mas a magnitude já tira o sono de quem trabalha com agricultura, energia e, no caso do Amazonas, transporte fluvial.
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Amazônia sob vigilância
É aqui que a história ganha peso para o Amazonas. O El Niño tende a esticar a seca na Amazônia e no Cerrado, e junto com ela cresce o risco de incêndio — pelo menos até o fim de setembro.
Por ora, os números de queimadas ainda surpreendem para melhor: em junho, ficaram 27% abaixo da média histórica e 14% abaixo do registrado em 2025. O governo credita o resultado ao reforço de brigadistas e à Política Nacional de Manejo Integrado do Fogo.
Mas essa vantagem pode não durar. Secas provocadas por El Niños anteriores já derrubaram o nível dos rios amazonenses, comprometeram a navegação e deixaram comunidades ribeirinhas isoladas. Com o fenômeno ainda subindo de intensidade, o alerta vale menos para o presente do que para os próximos meses.
Um El Niño em ano de eleição
O timing não passa despercebido. O fenômeno ganha força bem no ano em que o Brasil escolhe presidente, governadores e Congresso — e em que o clima virou, cada vez mais, tema de disputa política. Segundo o ClimaInfo, os efeitos podem se estender até o primeiro semestre de 2027, o que empurra o problema direto para o colo de quem assumir mandato em 2027.
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