Rio de Janeiro(RJ)- O ex-comandante da Aeronáutica Carlos de Almeida Baptista Júnior relata, no livro Eu Disse Não! — Uma Trincheira Antigolpista, que Jair Bolsonaro pressionou os comandantes das Forças Armadas após a derrota nas eleições de 2022 e que o país chegou a um cenário que, na avaliação do militar, poderia provocar uma ruptura entre tropas.
A obra será lançada em setembro pela Autêntica Editora. Baptista Júnior comandou a Força Aérea Brasileira (FAB) entre abril de 2021 e janeiro de 2023 e participou diretamente de reuniões entre Bolsonaro, o então ministro da Defesa, Paulo Sérgio Nogueira, e os comandantes militares no período posterior à eleição. A previsão de lançamento é 15 de setembro.
O relato ganha peso por também se relacionar ao depoimento prestado pelo ex-comandante ao Supremo Tribunal Federal (STF). Em maio de 2025, Baptista Júnior foi ouvido como testemunha na Ação Penal 2668, que apurou a tentativa de golpe de Estado. O STF confirma que ele foi indicado pela Procuradoria-Geral da República (PGR) e pelas defesas de três dos oito réus do processo.
“Eu temia por uma ruptura entre tropas”
Em entrevista publicada nesta terça-feira (18) pela Folha de S.Paulo, Baptista Júnior afirmou que as pressões sobre os comandantes aumentaram depois da vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nas eleições de 2022.
O ex-comandante disse que conhecia a posição do Alto Comando da Aeronáutica e do então comandante da Marinha, Almir Garnier, mas não tinha a mesma clareza sobre a disposição de todos os integrantes das Forças Armadas.
“Eu temia por uma ruptura entre tropas”, afirmou Baptista Júnior.
Segundo ele, havia o risco de integrantes do Exército tomarem iniciativas por conta própria, o que poderia provocar um confronto entre militares.
O temor relatado pelo ex-comandante se refere às semanas seguintes à eleição, quando Bolsonaro ainda ocupava a Presidência e Lula aguardava a posse marcada para 1º de janeiro de 2023.
Reuniões discutiram alternativas para impedir posse de Lula
Baptista Júnior afirma que Bolsonaro apresentou aos comandantes alternativas para contestar o resultado eleitoral e impedir a posse de Lula.
Segundo relatos sobre o livro, reuniões ocorreram no Palácio da Alvorada e no Ministério da Defesa. Em uma delas, teria sido apresentada uma minuta com propostas de medidas de exceção. O então comandante da Aeronáutica afirma que se recusou a receber uma cópia do documento.
O episódio também apareceu no processo que tramitou no STF. Durante seu depoimento em 2025, Baptista Júnior falou sobre as reuniões com Bolsonaro e os demais comandantes e sobre a discussão de medidas de exceção.
Dois comandantes se opuseram à ruptura
Baptista Júnior afirma que ele e o então comandante do Exército, general Marco Antônio Freire Gomes, se opuseram à ruptura institucional.
A atuação dos dois comandantes também aparece na reconstrução dos acontecimentos feita durante as investigações e o processo judicial.
Já o então comandante da Marinha, almirante Almir Garnier, foi condenado pelo STF na Ação Penal 2668. A Primeira Turma fixou para ele pena de 24 anos de prisão.
O contraste entre as posições dos três comandantes se tornou um dos pontos relevantes da reconstrução das articulações que antecederam os atos de 8 de janeiro de 2023.
A pressão dos “dois cartões amarelos”
Um dos episódios relatados por Baptista Júnior envolve uma conversa direta com Bolsonaro.
Segundo o ex-comandante, o então presidente teria dito: “Já te dei dois cartões amarelos”, em referência à pressão exercida sobre sua atuação.
Baptista Júnior afirma que respondeu que não permaneceria no cargo depois de 1º de janeiro de 2023, data prevista para a posse de Lula.
O militar sustenta que, apesar das pressões, manteve a posição de que as Forças Armadas deveriam respeitar o resultado das urnas.
Ex-comandante votou em Bolsonaro em 2022
A trajetória de Baptista Júnior também inclui um elemento de contraste político. Em entrevista à Folha, ele afirmou que votou em Bolsonaro nas eleições de 2018 e 2022.
Questionado sobre a escolha de 2022, o ex-comandante disse que não imaginava que uma eventual reeleição levaria Bolsonaro a tentar subverter a ordem democrática ou permanecer no poder pela força.
A declaração aparece no contexto de um relato no qual o próprio militar descreve as pressões que afirma ter presenciado depois da derrota eleitoral de Bolsonaro.
Baptista Júnior, contudo, afirma que nunca apoiou uma ruptura institucional e que se opôs à utilização das Forças Armadas para impedir a posse de Lula.
Depoimento chegou ao processo do STF
O conteúdo do livro não é a única fonte pública para o relato de Baptista Júnior.
Em 21 de maio de 2025, o STF ouviu o ex-comandante como testemunha na Ação Penal 2668. O processo envolveu oito réus do chamado Núcleo 1 da tentativa de golpe de Estado.
Na ocasião, Baptista Júnior falou sobre as reuniões com Bolsonaro e os demais comandantes militares e sobre a discussão de medidas de exceção.
O processo terminou com a condenação dos oito integrantes do Núcleo 1. Em setembro de 2025, a Primeira Turma do STF fixou para Bolsonaro pena de 27 anos e três meses de prisão, enquanto Almir Garnier recebeu pena de 24 anos.
Livro apresenta versão de um dos protagonistas
Eu Disse Não! — Uma Trincheira Antigolpista chega às livrarias meses depois do encerramento do julgamento do Núcleo 1 da ação sobre a tentativa de golpe.
Na obra, Baptista Júnior reconstrói os acontecimentos a partir da posição que ocupava na cúpula militar. O livro acrescenta episódios, diálogos e avaliações pessoais aos fatos que também apareceram em depoimentos, investigações e decisões judiciais.
Por isso, as afirmações apresentadas na obra devem ser identificadas como relato de um dos protagonistas daquele período, e não como confirmação independente de todos os acontecimentos descritos.
O interesse jornalístico está justamente no cruzamento entre a narrativa registrada no livro e aquilo que Baptista Júnior já declarou formalmente durante o processo no STF.
SAIBA MAIS
Livro: Eu Disse Não! — Uma Trincheira Antigolpista
Autor: Carlos de Almeida Baptista Júnior
Editora: Autêntica Editora
Lançamento previsto: 15 de setembro de 2026
Cargo: comandante da Aeronáutica entre abril de 2021 e janeiro de 2023
Processo: Ação Penal 2668, no STF
Condição no processo: testemunha
Tema: bastidores das pressões militares após a eleição de 2022
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