Era uma tarde quente de verão em Manaus, daquelas em que o sol parece grudar no asfalto e o ar pesa como um cobertor úmido. Eu dirigia meu carro com um amigo de Salvador, que estava visitando a cidade pela primeira vez. Ele olhava pela janela, curioso, tentando absorver detalhes da paisagem urbana que se desenrolava diante de nós.
De repente, ele quebrou o silêncio: “Manaus é uma boa cidade, mas parece que falta acabamento.”
A frase ecoou no carro como um diagnóstico preciso, quase cruel. Ele continuou:
“As casas são mal construídas, as ruas estão sujas, as calçadas quebradas. Parece que nem os políticos nem o povo amam essa cidade.”
Fiquei em silêncio por um momento, tentando processar o que ele havia dito. Não era uma crítica maldosa, mas uma observação sincera de quem via a cidade com olhos estrangeiros. E, de certa forma, ele tinha razão. Manaus é uma cidade de contrastes, onde a exuberância da natureza se choca com a precariedade da urbanização.
Resiliência
Pensei nas casas que víamos ao longo do caminho: algumas belas, outras inacabadas, com tijolos à mostra e telhados improvisados. Pensei nas ruas esburacadas, nas calçadas desniveladas, no lixo que insiste em se acumular nos cantos. Pensei no Teatro Amazonas, imponente, cercado por uma cidade que parece não acompanhar sua grandiosidade.
Mas também pensei no povo manauara, na sua resiliência, no seu jeito caloroso de receber quem chega. Pensei nas feiras de frutas, no cheiro de tacacá que invade as esquinas, no som dos pássaros que ainda resistem no meio do caos urbano. Pensei no encontro dos rios, na floresta que teima em existir mesmo com toda a pressão do progresso.
Será que falta acabamento? Sim, talvez falte. Mas talvez o que falte mesmo seja um olhar mais cuidadoso, um amor mais profundo por essa cidade que é tão única. Manaus não é perfeita, e talvez nunca seja. Mas ela tem uma beleza que só quem vive aqui consegue enxergar. Uma beleza que não está nos detalhes, mas no todo.
Meu amigo de Salvador talvez não tenha visto isso. Ele viu o que estava na superfície, e não o que está nas entranhas. Manaus é como uma obra de arte inacabada, cheia de imperfeições, mas com um potencial imenso. Cabe a nós, que vivemos aqui, dar a ela o acabamento que merece.
E, enquanto dirigia, eu me peguei pensando: talvez o verdadeiro acabamento não esteja nas casas, nas ruas ou nas calçadas, mas no amor que dedicamos à cidade. Um amor que, apesar de tudo, ainda resiste. Como a floresta. Como o rio. Como o povo manauara.
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Gláucia Chair é jornalista. Diretora de Redação do Portal Meu Amazonas.