A Justiça da Bolívia decretou, na sexta-feira (21), a prisão preventiva por 180 dias do argentino Fernando Cerimedo. Ele é investigado por tentativa de feminicídio contra a advogada e analista política Nadia Beller, que sofreu três disparos em Santa Cruz de la Sierra. A defesa afirma que Cerimedo é inocente.
A prisão trouxe novamente ao centro do debate um personagem conhecido no Brasil. Cerimedo ganhou projeção no país após divulgar, em 2022, alegações falsas sobre as urnas eletrônicas. O material alimentou a contestação do resultado da eleição presidencial vencida por Luiz Inácio Lula da Silva.
Cerimedo apresentou falso dossiê sobre as urnas
Em 4 de novembro de 2022, Cerimedo transmitiu uma live pelo canal La Derecha Diario. Ele apresentou um suposto dossiê sobre as urnas brasileiras.
O conteúdo questionava principalmente equipamentos de modelos anteriores a 2020. A transmissão também levantava dúvidas sobre os registros eletrônicos das urnas.
TSE esclarecimentos
O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) já havia esclarecido que as urnas dos modelos 2009, 2010, 2011, 2013 e 2015 funcionavam com os mesmos programas utilizados no pleito de 2022. O tribunal também explicou os mecanismos de rastreabilidade dos arquivos gerados pelos equipamentos.
Os próprios registros técnicos do TSE mostram que cada arquivo de log possui mecanismos capazes de identificar a urna que o gerou. A Justiça Eleitoral também publica os arquivos e seus mecanismos de verificação.
O TSE ainda esclareceu que os logs não permitem identificar em quem cada eleitor votou. Os arquivos registram eventos do funcionamento da urna, mas não revelam o voto individual.
Material de Cerimedo chegou ao debate do PL
A história não terminou na internet.
A Polícia Federal identificou a conexão entre o conteúdo divulgado por Cerimedo e o material utilizado posteriormente pelo Instituto Voto Legal (IVL). O instituto produziu um relatório usado pelo Partido Liberal em uma representação apresentada ao TSE depois da eleição de 2022.
A investigação da PF também apontou que o major da reserva Angelo Martins Denicoli atuava como elo entre integrantes do grupo investigado e Cerimedo. O relatório policial registrou ainda a circulação do material sobre as urnas entre diferentes integrantes da estrutura investigada.
Em outro trecho da investigação, a PF registrou que o conteúdo divulgado por Cerimedo foi usado para disseminar informações falsas sobre o sistema eleitoral. O material também apareceu relacionado à tentativa de questionar o resultado das eleições de 2022.
O que aconteceu com a investigação brasileira
Cerimedo foi indiciado pela Polícia Federal no inquérito que investigou a tentativa de golpe de Estado.
Mas existe uma distinção importante: a Procuradoria-Geral da República não o denunciou na ação apresentada em fevereiro de 2025.
Na manifestação, a PGR reconheceu a divulgação de informações infundadas por Cerimedo. Porém, afirmou que as investigações não esclareceram se ele atuou apenas como vetor de propagação e busca de audiência ou se tinha conhecimento e adesão ao projeto criminoso investigado.
Por isso, não é correto afirmar que Cerimedo seja réu no processo do golpe ou que o Supremo Tribunal Federal tenha condenado o argentino por esse caso.
O que a prisão na Bolívia tem a ver com o Brasil
Os dois casos são independentes.
A prisão atual decorre de uma investigação da Justiça boliviana sobre o ataque contra Nadia Beller. O processo brasileiro trata da atuação de Cerimedo na disseminação de informações falsas sobre o sistema eleitoral e de sua possível relação com a trama investigada pela Polícia Federal.
Não há, nas fontes consultadas, indicação de que o ataque contra Beller tenha relação com a investigação brasileira.
Na Bolívia, a acusação sustenta que Cerimedo teria participado do planejamento do ataque. O Ministério Público também apresentou elementos extraídos de seu telefone. A defesa contesta as acusações e questiona a validade das provas.
A Justiça decidiu mantê-lo preso preventivamente por 180 dias enquanto a investigação prossegue.
Quem é Fernando Cerimedo
Cerimedo é consultor político argentino e fundador do La Derecha Diario. Ele ganhou projeção na política latino-americana por sua atuação em campanhas e estratégias digitais.
O argentino participou da campanha de Javier Milei na Argentina. Também manteve relação política com Eduardo Bolsonaro e voltou a aparecer ao lado do ex-deputado brasileiro em 2026.
A trajetória explica por que sua prisão na Bolívia voltou a chamar atenção no Brasil.
Cerimedo não é apenas um consultor envolvido em uma investigação criminal no exterior. Ele também participou de uma operação de comunicação que ajudou a disseminar, no Brasil, uma narrativa falsa sobre a eleição de 2022.
E esse histórico ganhou novo significado em 2026.
Saiba mais
- A live que espalhou falsas alegações sobre as urnas
- Em 4 de novembro de 2022, poucos dias após o segundo turno das eleições, Fernando Cerimedo transmitiu uma live intitulada “Brazil Was Stolen” (“O Brasil foi roubado”).
- Na transmissão, o argentino apresentou um documento sem autoria técnica reconhecida e fez alegações sobre o funcionamento de modelos antigos de urnas eletrônicas. O conteúdo sugeria, sem apresentar evidências válidas, que os equipamentos poderiam ter favorecido Luiz Inácio Lula da Silva na eleição.
- As alegações não foram confirmadas pelas auditorias e verificações realizadas sobre o sistema eleitoral. O TSE informou, após o segundo turno, que os relatórios das entidades fiscalizadoras não apontaram fraude ou inconsistência nas urnas ou no processo de votação.
- Pesquisadores da USP, UFSCar e UFABC também analisaram argumentos semelhantes e afirmaram que eles não apresentavam fundamento técnico capaz de demonstrar comportamento irregular das urnas.
- A transmissão de Cerimedo ocorreu em um período de forte circulação de conteúdos falsos sobre as eleições. O TSE registrou que acusações sem provas, interpretações equivocadas de boletins de urna e falsas informações sobre a totalização dos votos se espalharam pelas redes sociais durante o período eleitoral.
- A narrativa sobre uma suposta fraude eleitoral continuou circulando depois da eleição e passou a integrar o ambiente de desinformação que marcou a crise política do período. A existência dessa circulação, porém, não permite atribuir à live de Cerimedo a causa dos atos de 8 de janeiro de 2023.
- A informação mais importante é outra: a Polícia Federal identificou posteriormente a circulação do material produzido por Cerimedo entre integrantes investigados na apuração sobre a tentativa de golpe. O conteúdo também apareceu relacionado a iniciativas destinadas a questionar o resultado das eleições de 2022.
- Em resumo: a transmissão apresentou alegações sobre fraude nas urnas que não foram comprovadas. A Justiça Eleitoral e pesquisadores independentes contestaram os argumentos apresentados. O material, entretanto, continuou circulando e entrou no radar das investigações brasileiras sobre a desinformação eleitoral.
Leia mais: Preso na Bolívia, Fernando Cerimedo já espalhou fraude eleitoral no Brasil
Associação de Juristas lança campanha contra anistia a golpistas
Ex-comandante da FAB relata pressão de Bolsonaro por golpe em livro
Moraes suspende visitas de Flávio Bolsonaro ao pai por 90 dias
Quer receber notícias no seu WhatsApp ?-CLIQUE AQUI
Fale com a Redação: E-mail: [email protected] e WhatsApp: (92) 99148-8431
Deixe um comentário