PF diz que Eduardo Bolsonaro geriu dinheiro de Vorcaro para filme nos EUA

Relatório aponta mensagem atribuída ao ex-deputado sobre remessas ao fundo Havengate, no Texas; ele nega ter gerido o fundo e diz que cedeu apenas direitos de imagem

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Manaus (AM) – A Polícia Federal afirma, em relatório enviado ao Supremo Tribunal Federal, que Eduardo Bolsonaro (PL) deu orientações sobre como recursos destinados ao filme Dark Horse poderiam ser geridos nos Estados Unidos. O documento teve o sigilo levantado na noite de quinta-feira (10) e integra o inquérito autorizado contra ele e o irmão Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência, que cumpriu agenda em Manaus nesta sexta-feira (11).

O material veio a público por determinação do presidente do STF, Edson Fachin, cumprida pelo ministro André Mendonça, relator das investigações sobre o Banco Master. Não há denúncia formalizada, e nenhum dos citados é réu.

O que o relatório diz sobre Eduardo Bolsonaro e o Dark Horse

Segundo a PF, o publicitário Thiago Miranda encaminhou a Daniel Vorcaro, em março de 2025, uma captura de tela de conversa atribuída a Eduardo Bolsonaro. Na mensagem, ele avalia que seria preferível que os recursos já estivessem em território americano, porque transferências internas seriam mais simples, e estima que remessas parceladas a partir do Brasil poderiam levar cerca de seis meses.

Na mesma conversa, segundo o parecer do procurador-geral da República, Paulo Gonet, Eduardo colocou Altieris Chaves Santana, diretor da Havengate Development Fund GP LLC, “à disposição para operar o esquema”.

A expressão consta do parecer, que endossou a representação da PF, e reproduz a tese da autoridade policial.

O próprio documento trata a informação como hipótese investigativa. A mensagem não foi extraída do aparelho de Eduardo: é uma captura de tela atribuída a ele e encaminhada por terceiro.

Quatro valores diferentes circulam sobre o filme

A cobertura do caso tem misturado cifras que não significam a mesma coisa:

  • US$ 24 milhões, cerca de R$ 122 milhões: total que o Havengate receberia de Vorcaro. É o valor previsto, não o pago. As remessas acabaram interrompidas após a prisão do ex-banqueiro.
  • US$ 12,333 milhões, cerca de R$ 62,8 milhões na cotação da época: efetivamente repassado, em sete parcelas, entre fevereiro e setembro de 2025.
  • R$ 134 milhões: valor previsto em contrato para a produção. A PF aponta discrepância elevada desse montante em relação ao custo habitual de filmes brasileiros de porte semelhante.
  • R$ 61 milhões: financiamento mencionado em conversas entre os envolvidos.

Os números do segundo item vêm da delação de Antônio Carlos Freixo Júnior, o Mineiro, homologada nesta semana. Ele afirmou que estavam previstas dez subscrições de cotas e que apenas sete se concretizaram. Delação premiada é elemento de investigação e depende de corroboração por outras provas.

Há divergência sobre a data do último repasse. Mineiro afirma que ocorreu em setembro de 2025. Flávio Bolsonaro sustenta que foi em maio daquele ano.

O que a PF quer esclarecer sobre o fundo Havengate

A representação reúne os elementos que, para a PF, justificam a investigação: a discrepância do valor contratado, a coincidência entre o cronograma do contrato e remessas internacionais identificadas pelo Coaf, o comprovante de remessa ao Havengate e cobranças atribuídas a Flávio Bolsonaro para a liberação dos recursos.

O fundo fica no Texas e é administrado por Paulo Calixto, advogado com relação próxima a Eduardo. Criado em 2020 para um projeto imobiliário estimado em US$ 21 milhões, ficou sem operação por cerca de quatro anos antes de passar a receber os repasses, e não tem imóvel registrado em seu nome.

A gestora Calixsan Capital Management LLC, ligada a Calixto e a Altieris Santana, cancelou o registro como gestora regulada no Texas em maio de 2021 e na Flórida em setembro do mesmo ano.

O objetivo declarado do inquérito é esclarecer a origem, o trânsito, o destino e os beneficiários finais dos valores.

Eduardo Bolsonaro nega ter gerido o fundo

Quando os primeiros documentos sobre sua participação vieram a público, Eduardo afirmou que não teve função no fundo.

“Não exerci qualquer posição de gestão ou emprego no fundo”, disse, acrescentando que apenas cedeu direitos de imagem.

Ele também declarou que quem afirma que recebeu dinheiro de Vorcaro ou do fundo americano está mentindo. Sobre o crédito de produtor executivo, disse que se referia ao risco financeiro assumido no início do projeto e que perdeu função prática com a entrada de outros investidores.

Documentos vieram a público no dia da agenda de Flávio em Manaus

A abertura dos autos ocorreu na véspera da visita de Flávio Bolsonaro à fábrica da Moto Honda, no Distrito Industrial de Manaus, na manhã desta sexta-feira. Na coletiva, o candidato tratou de Zona Franca, data centers e gás natural. Não há registro, nos relatos publicados até a tarde, de que ele tenha sido questionado sobre o inquérito.

Flávio é apontado no relatório como interlocutor direto de Vorcaro na negociação dos aportes. Como candidato à Presidência, ele responde a esse inquérito a menos de um mês do primeiro turno, marcado para domingo, 4 de outubro.

Saiba mais: em que fase está o caso

Inquérito é a fase de coleta de provas. Não há acusado, apenas investigados. Para que alguém vire réu, a PGR precisa apresentar denúncia e o STF precisa recebê-la. Nada disso ocorreu neste caso.

Dark Horse é a cinebiografia de Jair Bolsonaro e tinha estreia marcada para 11 de setembro de 2026, a mesma data em que os documentos vieram a público.


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