MPF alerta para avanço da contaminação por mercúrio e cianeto em garimpos ilegais na Amazônia

Estudos apresentados em oficina da ONU indicam que parte do pescado comercializado na região amazônica contém níveis de mercúrio acima do considerado seguro para consumo

Data:

Compartilhe esse post:

Manaus (AM) – A contaminação provocada pelo garimpo ilegal de ouro voltou ao centro das discussões entre órgãos ambientais e de fiscalização durante uma oficina promovida pelo Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC), em parceria com o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). O encontro reuniu representantes de instituições públicas para discutir estratégias de combate aos impactos do uso de mercúrio e cianeto na Amazônia.

Realizada entre os dias 7 e 10 de julho, em Brasília, a capacitação contou com a participação do Ministério Público Federal (MPF), que apresentou dados e experiências relacionadas ao enfrentamento da mineração ilegal nos estados do Amazonas, Acre, Rondônia e Roraima.

Estudos apontam risco à saúde de populações amazônicas

Durante a oficina, o procurador da República André Luiz Porreca Ferreira Cunha, especialista em combate à mineração ilegal na Amazônia Ocidental, apresentou estudos utilizados em investigações do MPF que apontam um cenário preocupante.

Segundo os dados apresentados, parte do pescado comercializado em centros urbanos da Amazônia apresenta concentrações de mercúrio acima dos limites considerados seguros para o consumo humano.

O problema afeta principalmente povos indígenas, comunidades ribeirinhas e outras populações que dependem do peixe como principal fonte de proteína.

O mercúrio utilizado na separação do ouro acaba lançado nos rios e incorporado na cadeia alimentar. A exposição contínua pode provocar alterações neurológicas, prejuízos ao desenvolvimento infantil e danos ao feto durante a gestação.

Contrabando abastece garimpos ilegais

Outro tema debatido foi a entrada clandestina de mercúrio no Brasil.

Como o país não produz a substância, o material chega principalmente por rotas de contrabando nas fronteiras com Bolívia, Peru e Guiana, abastecendo garimpos ilegais espalhados pela Amazônia.

O MPF apresentou como exemplo uma investigação realizada no Porto Fluvial de Guajará-Mirim (RO), onde foram identificadas falhas na fiscalização de pessoas e cargas.

Após ação civil pública, a Justiça Federal determinou medidas para reforçar o controle no local e reduzir o comércio clandestino da substância.

Pai é preso suspeito de envenenar filho de 3 anos e agredir ex-mulher no AM

Venda pela internet preocupa autoridades

Entre as iniciativas apresentadas está o Projeto Rede Sem Mercúrio, criado pelo MPF para combater a comercialização ilegal da substância em plataformas digitais.

A instituição também defende:

  • criação de um sistema nacional de monitoramento da contaminação ambiental;
  • fortalecimento da fiscalização sobre o comércio de produtos químicos utilizados no garimpo;
  • incentivo ao uso de tecnologias menos poluentes na mineração legal;
  • maior participação das comunidades afetadas na formulação de políticas públicas.

Cianeto passa a ser utilizado por garimpos clandestinos

Durante a apresentação, o procurador alertou para um novo desafio enfrentado pelos órgãos ambientais.

Segundo ele, o aumento do preço do mercúrio tem levado parte dos garimpos ilegais a substituir o metal pelo cianeto, substância igualmente tóxica para o meio ambiente e para a saúde humana.

A mudança, segundo o MPF, exige atualização das estratégias de fiscalização e monitoramento, já que o uso do composto químico amplia os riscos de contaminação de rios e ecossistemas.

Especialistas discutiram ações integradas

Além do MPF, a programação reuniu especialistas de diversas instituições públicas, entre elas:

  • Ibama;
  • Agência Nacional de Mineração (ANM);
  • Polícia Federal;
  • Exército Brasileiro;
  • Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz);
  • universidades e centros de pesquisa.

O objetivo foi compartilhar experiências e discutir medidas para reduzir os impactos ambientais e sociais provocados pelo garimpo ilegal na Amazônia.


O que dizem as pesquisas sobre o mercúrio

O mercúrio é considerado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) uma das substâncias químicas de maior preocupação para a saúde pública. Quando lançado nos rios, transforma-se em metilmercúrio, composto altamente tóxico que se acumula nos peixes consumidos pela população.

Amazonas revoga normas que facilitavam o uso de mercúrio na mineração

A exposição prolongada pode causar:

  • alterações neurológicas;
  • perda de memória;
  • comprometimento motor;
  • problemas cardiovasculares;
  • prejuízos ao desenvolvimento fetal e infantil.

Na Amazônia, estudos científicos publicados nos últimos anos têm identificado níveis elevados da substância em comunidades indígenas e ribeirinhas situadas próximas a áreas de garimpo ilegal.

SAIBA MAIS

O Brasil é signatário da Convenção de Minamata sobre Mercúrio, tratado internacional que prevê medidas para reduzir o uso da substância, controlar emissões e proteger populações expostas aos riscos da contaminação ambiental.


LEIA MAIS:

PF e PRF apreendem 108 kg de mercúrio em Manaus e reforçam combate ao garimpo ilegal

Carga ilegal de 108 kg de mercúrio é apreendida pela PF em Manaus

MPF alerta que projeto sobre compra de ouro pode ampliar garimpo ilegal na Amazônia


Quer receber notícias no seu WhatsApp ?-CLIQUE AQUI

Fale com a Redação: E-mail: [email protected] e WhatsApp: (92) 99148-8431


Resumo da notícia:

  • A contaminação por mercúrio na Amazônia se agrava devido ao garimpo ilegal, afetando principalmente comunidades indígenas e ribeirinhas.
  • Oficina promovida pelo UNODC e Ibama discute estratégias para combater os impactos da mineração e uso de mercúrio e cianeto.
  • O MPF alerta que parte do pescado na Amazônia apresenta níveis de mercúrio acima do seguro para consumo humano.
  • O contrabando de mercúrio via fronteiras com Bolívia, Peru e Guiana abastece garimpos ilegais na região.
  • Especialistas recomendam ações integradas e um sistema de monitoramento nacional para enfrentar a contaminação ambiental.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Marcelo Torres
Marcelo Torreshttps://portalmeuamazonas.com.br
Marcelo Torres é jornalista, com atuação voltada à cobertura de cotidiano e temas de interesse público. Com olhar atento aos fatos e compromisso com a apuração responsável, prioriza informação clara, contextualizada e de relevância para o leitor.

Matérias Relacionadas

Campanha de multivacinação começa em Manaus; veja quem deve atualizar a caderneta

Ação segue até 1º de setembro e atende crianças e adolescentes de até 14 anos em 172 salas de vacinação da capital

Projeto vai selecionar quatro territórios para fortalecer rede nacional de afroturismo

Edital recebe inscrições até 3 de outubro e vai apoiar iniciativas voltadas à preservação da memória, cultura e ancestralidade afro-brasileiras.

Manausprev inicia Semana Interna de Prevenção de Acidentes com programação voltada à saúde e qualidade de vida

Evento segue até sexta-feira (7) com palestras sobre ergonomia, segurança do trabalho, saúde financeira, sustentabilidade e melhoria dos processos para servidores e estagiários.

VÍDEO: Após queda de avião, piloto diz que iria buscar drogas no interior do Amazonas

Homem foi resgatado com ferimentos às margens do rio, em Tonantins, e acabou levado para a delegacia após receber atendimento médico.